Em clima tenso, índios repudiam decisão do STJ, prometem resistir e retomar 4 fazendas

Durante uma hora e meia, lideranças de todas as aldeias de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti se uniram para prestigiar o ato marcado também por muita emoção, quando Otoniel Gabriel evocou a memória do irmão Oziel.

Foto: Marcos Tomé/Região News - Em clima tenso, índios repudiam decisão do STJ, prometem resistir e retomar 4 fazendas

Reunidos no portão de acesso à Fazenda Buriti, aproximadamente mil índios da etnia terena repudiaram a decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) tomada na semana passada, de não reconhecer como terra indígena os 13 mil hectares demarcados como parte da Reserva Buriti.

Durante uma hora e meia, na manhã desta segunda-feira (5), lideranças de todas as aldeias de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti se uniram para prestigiar o ato marcado também por muita emoção, quando Otoniel Gabriel evocou a memória do irmão Oziel, morto em maio de 2013, durante a tentativa de reintegração de posse da Fazenda Buriti, comandada pela Polícia Federal.

Muitos dos presentes vieram às lágrimas diante do relato emocionado de Otoniel, indicado pelas lideranças, para cumprir o papel de porta-voz da comunidade junto à imprensa. A palavra de ordem foi de repúdio a decisão do STJ e resistência a qualquer tentativa de reintegração das áreas retomadas. “Não vamos arredar o pé daqui, independente do que a Justiça vier a decidir”, garantiu Otoniel.

Também é consenso a decisão de retomar as quatro propriedades ainda de posse dos fazendeiros. Nos últimos cinco anos, os índios honraram o compromisso, firmado com o Governo Federal, de não entrar em novas áreas (estão em 27) como um gesto de boa vontade enquanto perdurassem as negociações sobre o valor da indenização cobrada pelos fazendeiros.

Presente ao ato, o advogado Anderson Santos fez um relato detalhado do processo, os desdobramentos desta decisão do STJ e que a palavra final será dada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), onde em até 90 dias deve ser escolhido o relator da ação. O advogado sustenta que o Superior Tribunal de Justiça não teria legitimidade para julgar a questão, a competência seria do STF.

Durante os pronunciamentos alguns políticos não foram poupados pelos índios, especialmente o ex-governador André Puccinelli, por ter enviado tropas da Polícia Militar para as ações de reintegração de posse, quando o assunto é de competência da Polícia Federal. A deputada federal Teresa Cristina, que é produtora rural, também foi alvo de críticas por se posicionar contra a causa de indígena, se colocando na defesa dos interesses dos fazendeiros.

“Com o movimento de hoje, nosso objetivo é dizer para o Judiciário e para a sociedade que nós estamos vivos e não vamos sair da nossa terra. São três estudos antropológicos que comprovam que a terra é nossa. Essa decisão é uma afronta a nós, enquanto povos tradicionais", disse Otoniel Gabriel, porta-voz das lideranças.

Para Otoniel a decisão do STJ pode provocar um novo confronto e novas mortes. "Essa situação que o judiciário impôs essa semana reacendeu essa situação. Esperávamos um parecer favorável para nós. Só vai tencionar o embate. Estamos a postos. Numa eventualidade de reintegração de posse, vamos resistir. Precisamos levar adiante o legado que ele [Oziel] deixou. Ele morreu defendendo nossa terra e se preciso for, vamos morrer aqui", concluiu.