Do futebol ao pódio do triplo: a jornada de acasos de Almir Júnior rumo a 2020

Vice-campeão no Mundial Indoor, triplista celebra ascensão meteórica e mira continuar evoluindo de olho na Olimpíada de Tóquio

- Foto: Globo Esporte

O objetivo sempre esteve claro na mente de Almir Cunha dos Santos: queria estar entre os melhores atletas do mundo. Só não imaginava que alcançaria esse sonho no salto triplo. Acasos da vida tiraram o garoto dos campos de futebol de Peixoto de Azevedo, no Mato Grosso, e o levaram primeiro para o salto em altura em Porto Alegre, depois para o salto triplo em Birmingham. Em pouco mais de um ano na prova, Almir Júnior chegou ao Mundial Indoor e conquistou a prata na Inglaterra, no último sábado. Uma ascensão meteórica na jornada do atleta de 24 anos, que mira continuar voando rumo a Olimpíada de Tóquio 2020.

- Era um objetivo desde criança, era um sonho, mas não mensurava uma medalha. Me imaginava entre os melhores do mundo. Não um pódio. É uma coisa muito positiva. Trabalhei para chegar aonde cheguei. Mas não vou deslumbrar, mantenho os pés no chão. Tenho noção que são fases que tenho que trabalhar para me manter entre os melhores. Meu foco é 2020 - disse Almir.

Do campo para a pista

Até o nascimento de Almir tem toques do acaso. O pai maranhense quis que o filho viesse ao mundo em Matupá, mas foi na vizinha Peixoto de Azevedo que o futuro medalhista mundial cresceu. Como qualquer garoto, queria ser jogador de futebol. Estava na escolinha de futebol, quando todos os jogadores foram convidados para um teste no atletismo.

- Sempre jogava bola. Um dia não tinha atleta, chamaram os atletas de futebol. Eu tinha uns 13 anos. Comecei a me destacar, aí comecei a me interessar. Meu treinador me incentivou, disse que eu tinha potencial, plantou essa semente de atletismo em mim.

Do Mato Grosso para Porto Alegre

Elves Pinho viu que o garoto tinha futuro no atletismo. Só que na época a prova de Almir ainda era o salto em altura. Ele conta que treinou "de verdade" um ano em Peixoto de Azevedo, quando seu técnico deu o incentivo para alçar voos mais altos. Aos 15 anos, abraçou a oportunidade de treinar na Sogipa, em Porto Alegre.

- Peguei minhas coisas e vim sozinho. Meus pais me apoiaram muito, me incentivaram, porque eu queria muito. O começo de tudo é complicado. Mas eu tinha um objetivo claro, e sempre que desanimava pensava que não queria voltar para Peixoto como derrotado ou como quem desistiu.

Almir morou três anos em um alojamento dentro do estádio do Sogipa. Lembra com nostalgia desses tempos de adolescente. Desde aquela época já era treinado por José Haroldo Loureiro Gomes, o Arataca, quase um segundo pai para o atleta. Conseguia bons resultados no salto em altura nacional, mas a evolução não era o suficiente para voar também no cenário internacional. Ele tem 2,18m como melhor marca, bem abaixo dos 2,29m do índice olímpico.

Do salto em altura para o triplo

A solução para continuar crescendo no atletismo surgiu por acaso, e fora do salto em altura. Almir defendeu Mogi das Cruzes nos Jogos Abertos do Interior, no fim de 2016. Para somar pontos para a equipe, se inscreveu também no salto em distância e no salto triplo. Foi o início de uma transição de provas que colocaria o mato-grossense entre os melhores do mundo.

- Toda minha vida fui saltador em altura. Essa transição foi feita no ano passado. Competia por Mogi das Cruzes e participava das três provas para somar pontos. Tive resultados expressivos no triplo. Isso me abriu os olhos. Foi aí que surgiu a ideia de trocar, por estar começando um novo ciclo olímpico.

Ascensão meteórica

Foi preciso coragem para abandonar o salto em altura e mudar de prova definitivamente no ano passado, e deu certo. Almir fechou 2017 como número 1 do ranking brasileiro do salto triplo. Em 2018, a evolução foi ainda mais expressiva, melhorando sua marca praticamente a toda competição até chegar ao Mundial Indoor como líder do ranking mundial. Foi superado pelo americano Will Claye, atual vice-campeão olímpico, mas novamente fez o melhor salto da carreira e hoje figura como número 2 da temporada.

- O que eu buscava era conseguir ir para as Olimpíadas no salto triplo e queria estar saltando acima dos 17m no ano dos Jogos. Nosso trabalho é focado em 2020. Mas já consegui isso agora neste ano. Não são resultados apressados. É efeito da nossa preparação.

Entre os grandes

Apesar de ter chegado ao Mundial Indoor como líder do ranking do salto triplo, Almir não era o favorito na disputa. Estavam na disputa o americano Will Claye (prata nas duas últimas Olimpíadas e no último Mundial outdoor), o português Nelson Évora (campeão olímpico em 2008 e bronze no último Mundial outdoor), o chinês Dong Bin (bronze na Rio 2016) e o azeri Alexis Copello (bronze no Mundial de 2009, quando ainda defendia Cuba). A única grande ausência foi a do americano Christian Taylor, atual campeão olímpico e mundial outdoor.

- As estrelas eram os outros. Eu era um coadjuvante que teria um certo potencial, que teria chance de brigar, mas não fui assediado e nem nada. Dentro da prova estava focado, nem vi eles saltarem. Não podia deixar deslumbrar. Na pista todo mundo é igual. Todo mundo tem as mesmas chances. Depois da prova sim, tirei foto com o Évora e com o Claye. São atletas que tenho admiração. Tive esse momento extra pódio.

De anônimo a revelação do atletismo brasileiro, Almir viu suas redes sociais bombarem depois da prata em Birmingham. Afinal, fazia tempo que um brasileiro não se destacava no salto triplo, uma das provas mais tradicionais para o país. O jovem atleta entrou para um hall de medalhistas olímpicos e mundiais, se juntando a Adhemar Ferreira da Silva, Nelson Prudêncio, João do Pulo e Jadel Gregório.

- É uma responsabilidade muito grande. O Brasil tem uma tradição imensa no salto triplo. Tem história. É uma coisa legal e não me pressiona, só me motiva. Quero melhorar a cada dia para fazer parte dessa história. Estou muito feliz.

Rumo a Tóquio

Almir mantém o discurso pés no chão depois de conquistar a prata no Mundial Indoor. Ele foca nos treinos para se preparar para a temporada outdoor. Sabe que precisa continuar evoluindo para se manter entre os melhores do mundo também em pista descoberta no salto triplo. O atleta evita estabelecer metas de marcas, só quer crescer em sua jornada rumo a Tóquio 2020.

- Ele na verdade está começando o seu projeto para os Jogos de 2020 e de 2024. Ele tem muita dedicação aos treinos e renunciou a muitas coisas para conseguir esta medalha. Este é o caminho - disse o técnico Arataca.

Almir volta a competir no dia 4 de maio, quando abre sua temporada outdoor na etapa de Doha de Diamond League, principal circuito mundial do atletismo.