Índios rejeitam acordo e Polícia Federal prepara despejo forçado

Delegado enviado de Brasília para conduzir negociações diz que comunidade indígena tem orgulho pela terra e se nega a sair

Índios que ocupam 11 propriedades no município de Caarapó; PF prepara despejo de duas áreas - Foto: Helio de Freitas

Não houve acordo entre a Polícia Federal e os índios que ocupam fazendas no município de Caarapó, sobre a desocupação de duas áreas, cuja reintegração de posse foi determinada pela Justiça. Sem decisão sobre uma saída amigável, a PF prepara uma operação para fazer o despejo forçado.

As áreas fazem parte de 11 propriedades invadidas em junho de 2016, após o confronto entre índios e fazendeiros. O agente de saúde indígena Clodiodi Aquiles de Souza, 23, foi morto a tiros e outros seis índios ficaram feridos. O conflito ocorreu na fazenda Yvu, que segue ocupada.

“Tentamos de todas as formas convencer a comunidade sobre a importância de se evitar a reintegração com força policial, que é sempre muito traumática. Os índios têm um orgulho pela terra e isso dificulta a saída. Eles entendem que a ordem judicial não tem de ser cumprida por estarem nas terras que sempre lhes pertenceram”, afirmou na manhã de hoje (6) o delegado federal Luiz Carlos Porto.

Especialista em negociar com índios em todo o país, Porto faz parte do serviço de repressão a crimes contra comunidades indígenas da PF e veio de Brasília para conversar com as tribos de Caarapó. “Conheço bem essa região e posso afirmar que Mato Grosso do Sul é o pior local do Brasil na atualidade em relação aos conflitos entre índios e fazendeiros por terra”, declarou o delegado em entrevista coletiva na sede da PF em Dourados.

Sem um acordo, Luiz Carlos Porto afirmou que em breve a PF terá de cumprir a ordem judicial, com apoio da Polícia Militar. Entretanto, ele não quis afirmar em que dia haverá o despejo. “Ainda esperamos uma saída pacífica”.

“A situação é de conflito em Caarapó. As áreas onde haverá a reintegração ficam ao lado da Aldeia Tey Kuê, que tem uma população enorme. Há muitas mulheres e crianças nas duas áreas, por isso estamos nos cercando de todos os cuidados para evitar uma operação atabalhoada semelhante à de Sidrolândia”, declarou o delegado.

No dia 30 de maio de 2013, durante reintegração de posse da fazenda Buriti, o Terena Oziel Gabriel, 35, foi baleado no peito e morreu após confronto envolvendo policiais federais e militares.

Segundo Luiz Carlos Porto, as duas áreas com reintegração a ser cumprida são a fazenda Santa Maria e uma parte da fazenda Novilho. A preocupação maior é a Santa Maria, onde fica o acampamento Guapoy.

“É uma área muito sensível, de acesso para as grandes fazendas da região. Os índios trancaram a estrada, tem um grupo grande nesse local, onde ocupam residências e depósitos. Essa fazenda é ponto de orgulho pelo embate que tiveram em 2016”, explicou o delegado, que se reuniu por várias vezes nesta semana com lideranças das áreas invadidas.

Só demarcação resolve – Com conhecimento de causa sobre os conflitos entre índios e fazendeiros pela terra, Luiz Carlos Porto diz que só as demarcações podem resolver o problema.

“A comunidade não é composta de criminosos e sim de trabalhadores que lutam por seus direitos. Temos que cumprir a ordem judicial e a lei que garante o direito de propriedade, mas a reintegração de posse não adianta porque as ocupações vão continuar. Só existe uma solução: é demarcar ou demarcar”, afirmou o delegado. Ele cobrou uma iniciativa do governo para unir índios e fazendeiros em busca de solução amigável.

As áreas invadidas fazem parte do território Dourados Amambai Peguá I, identificado pela Funai em maio do ano passado. Localizada nos municípios de Amambai, Caarapó e Laguna Carapã, a área tem 55.590 hectares.

O estudo de identificação e delimitação foi assinado em maio de 2016, “no apagar das luzes” do governo Dilma Rousseff e desencadeou o confronto ocorrido no dia 14 de junho, na fazenda Yvu.

Foi por causa desse decreto que os índios da aldeia Tey Kuê decidiram ampliar a reserva e ocuparam a fazenda onde seis deles foram feridos a tiros e o agente de saúde indígena morreu atingido por cinco disparos.