Do tchauzinho à parada, Mansell deu de graça a Piquet sua última vitória na F1

No GP do Canadá de 1991, Leão tinha 50 segundos de vantagem para o brasileiro quando tirou tanto o pé, que o alternador entrou em pane a um quilômetro da chegada pela menor carga elétrica

Em 1991, Patrese ganhou duas provas e mostrou velocidade - Foto: Getty Images

Imaginem vocês a seguinte situação: alguém que lidera com 50 segundos de vantagem e já administra a vitória na última volta, dando inclusive tchauzinho para a torcida, e a vitória é perdida a menos de um quilômetro da linha de chegada. Pois bem, isso aconteceu com Nigel Mansell no dia 2 de junho de 1991, no Canadá. Quando o Leão já comemorava a vitória, ela escorreu pelos dedos quando o carro parou, e Nelson Piquet herdou o que seria seu último triunfo na Fórmula 1. Essa curiosa corrida em Montreal é o tema da seção OTD ("On This Day").

A F1 chegava a Montreal sob um domínio absoluto de Ayrton Senna, vencedor das primeiras quatro corridas da temporada. No entanto, o brasileiro sempre alertou que a McLaren com motor Honda V12 não estava essa maravilha toda, e a combinação Williams-Renault vinha com força. E, no Canadá, Riccardo Patrese e Nigel Mansell mostraram que Senna não estava choramingando sem razão. A Williams fez dobradinha no grid, com o italiano superando o inglês no finalzinho do treino, enquanto Senna foi o terceiro.

Mordido com a perda da pole position, Mansell tomou a ponta de cara e, de imediato, abriu boa frente para Patrese, enquanto Senna sofria para manter o terceiro lugar à frente de um trio que tinha, além do grande rival Alain Prost, Jean Alesi e Nelson Piquet.

Senna realmente não tinha uma McLaren com grande desempenho, e, para piorar, o alternador pifou logo na volta 25 - a outra McLaren, de Gerhard Berger, havia abandonado com problemas eletrônicos na quarta passagem.

Duas voltas depois do abandono de Senna, a Ferrari de Prost também parou, com problemas de câmbio, o que deixou Alesi em terceiro, seguido por Piquet. Mas o brasileiro ganhou a posição quando a Ferrari teve problemas de motor.

Naquela altura, antes mesmo da metade da corrida, Mansell ditava um ritmo fortíssimo e abria cada vez mais de Patrese, que por sua vez tinha enorme vantagem sobre Piquet, o terceiro colocado. Pouco depois da metade da corrida, Patrese entrou nos boxes com um pneu furado e o brasileiro subiu para segundo.

O italiano começou uma furiosa recuperação e subiu para quinto quando Ivan Capelli (Leyton House) abandonou, na volta 43. O quarto lugar veio com uma ultrapassagem sobre J.J.Lehto (Dallara). Já a terceira posição foi obtida quando Stefano Modena (Tyrrell) foi aos boxes para trocar pneus e tirar um pedaço de plástico do radiador.

Mas alcançar Piquet já estava difícil e ficou praticamente impossível quando a Williams perdeu rendimento no terço final de corrida. Com Mansell na liderança 55 segundos à frente do brasileiro, e com Patrese uma volta atrás, a corrida parecia decidida.

Mas Mansell não estava disposto a tirar o pé e quebrou o recorde da pista ao cravar 1m22s385 na 65ª de 69 voltas. Aí a Williams ordenou que o Leão dosasse o pé porque não era necessário acelerar tanto. Mas quando o inglês tirou o pé, tirou demais...

Mansell abriu a última volta acenando para a torcida e passeava pela pista. Quando Galvão Bueno, rouco por uma gripe fortíssima, já elogiava o inglês pela atuação impecável, a Williams parou na saída do hairpin.

Mas olha só! Olha só! Olha o Mansell! No final! Ele bate no volante... Ele tenta chegar e não consegue! - berrou Galvão, com o restinho de voz que tinha naquele instante.

Piquet foi avisado pela equipe do problema de Mansell e acelerou para garantir a vitória, sua 23ª e última na Fórmula 1, e a sétima consecutiva do Brasil na categoria, contando duas dele próprio no fim de 1990, e as quatro de Senna no começo de 1991. Stefano Modena conquistou o melhor resultado de sua carreira, em segundo lugar, com Patrese salvando um pódio, em terceiro.

Depois da corrida, a Williams descobriu o motivo da parada de Mansell: ele simplesmente tirou tanto o pé, mas tanto, que o alternador entrou em pane porque a rotação do motor caiu demais e houve queda de carga elétrica... Na coletiva pós-corrida, perguntaram a Piquet se ele sentia pena pelo problema de Mansell, e Nelson respondeu bem ao seu estilo:

Não tenho pena de ninguém! O automobilismo é assim, já perdi corridas dessa forma.

A corrida em Montreal marcou também os primeiros pontos da estreante equipe Jordan na Fórmula 1, com um excelente quarto lugar de Andrea de Cesaris e um quinto de Gachot. Mesmo parado na última volta, Mansell ainda marcou um pontinho, em sexto.

E até hoje deve se perguntar porque tirou tanto o pé naquele fim de prova...