Para fugir do aluguel, famílias constroem barracos em antiga esplanada da ferrovia

A ocupação da antiga esplanada não é recente, mas algumas famílias estão há menos de um mês na área.

Para fugir do aluguel, famílias constroem barracos em antiga esplanada da ferrovia - Foto: Vanderi Tomé/Região News

Com o agravamento da crise econômica, dificuldade para se recolocar no mercado de trabalho, separar 300 metros quadrados, na antiga esplanada da ferrovia, transformá-la num lote e construir um barraco, tem sido uma alternativa para escapar do aluguel. Atualmente são pelo menos 25 famílias estão morando neste latifúndio urbano localizado em pleno centro da cidade. Até mesmo três vagões estão servindo para antigos moradores de rua.

A ocupação não é recente, mas algumas famílias estão há menos de um mês na área. É o caso de dona Josiane Ferreira da Conceição, 33 anos e do marido, Eliel Tenório de Souza, 43 anos, que tem 4 filhos. Eles trocaram a casa de duas peças, pela qual pagavam R$ 300,00 de aluguel, por um barraco de lona erguido num lote de 10x30. A luz foi cedida pelo vizinho, que além de autorizar uma ligação clandestina puxada do seu lote, cede a água tirada do poço que perfurou.

Dona Josiane ganha em torno de R$ 600,00 por mês como diarista, enquanto o marido, pedreiro, não tem um salário fixo. O orçamento doméstico é complementado pelo recebimento de R$ 500,00 de programas sociais (R$ 350,00 do bolsa família e R$ 150,00 do vale renda).

Entre os veteranos na área, está o catador de lixo reciclável, Ziober Afonso de Souza, 54 anos, que mora num dos vagões abandonados na antiga esplanada. Ele mora há 4 anos em Sidrolândia e inicialmente morava embaixo de uma árvore no Bairro Pé de Cedro. Divide o vagão, com Eder Santos Costa e tem como companheira, uma cadelinha. Quando a tristeza bate, Ziober não tem dúvida: pega o violão e exercita seu lado cantor. Quem canta seus males espanta, parece ser sua filosofia de vida nestas horas. “Além de cantar a gente toma uma bebida para esquentar”, brinca.

Direito de posse

Ano passado uma reportagem do Região News mostrou que quem quisesse, um terreno de 300 metros quadrados (15x20), teria de pagar R$ 15 mil ao posseiro mais antigo, Jorge de Parmo, que diz estar lá há 13 anos, quando tomou conta de 5 dos 15 hectares, autorizado pelo Sindicato dos Ferroviários, com sede em Campo Grande. Atualmente há duas casas em construção.

Ele tem esperança que sua situação será regularizada, quando então pretende oficializar a posse dos 21 posseiros com os quais negociou parcelas da gleba. Admite, porém, que como se trata de área pública, não poderá reivindicar usucapião, que o tornaria proprietário. Na área remanescente onde mantém posse, há duas casas.

Entre os posseiros há alguns veteranos, como Francisco Ventura Mora, que está há dois anos e seis meses mora em três peças construídas na área por seu irmão, que o repassou por R$ 3 mil. Ele diz que apelou para esta alternativa, porque não tem condições de pagar aluguel.

Leandro Almeida Norlok mora há mais de 6 anos em 2 hectares que ele diz ter comprado de um ex-funcionário da Rede Ferroviária Federal. Na área construiu uma casa, cria porcos, galinhas, vacas e tem uma pequena horta. Garante que se for obrigado, vai deixar a área sem impor resistência.

Já dona Luzia da Silva, conseguiu autorização do senhor Jorge, juntou R$ 3 mil para construir as peças onde mora com o marido e os três filhos. A água e a energia elétrica, são cedidas por vizinhas que fizeram ligações clandestinas (as conhecidas gambiarras).

Michelli Rodrigues Franca e o marido venderam dois carros, levantaram R$ 11 mil para a construção da casa para aonde se mudaram, junto com o filho. Eles construíram três peças em um terreno de 12x15, que terão de pagar R$ 13 mil pelo direito de posse.