Aumento de eleitores ‘sem voto’ é má notícia para candidatos de centro

Expectativa de um alto número de abstenções, votos nulos e em branco pode favorecer candidatos mais radicais, com histórico de eleitores mais engajados.

Urna eletrônica – sem voto impresso, TSE adotará modelo tradicional em 2018 - Foto: Nelson Junior/VEJA

Quem andar por Tocantins nesta semana e casualmente perguntar a um morador local em quem ele votou para governador na eleição do último domingo 24, não deve estranhar a dificuldade de encontrar um eleitor de Mauro Carlesse (PHS), mesmo após sua vitória com mais 75% dos votos válidos.

Isso ocorre porque mesmo que sejam somados os votos a Carlesse e de seu adversário no segundo turno, Vicentinho Alves (PR), o número é ainda menor dos que os 527.868 eleitores que anularam o voto, votaram em branco ou simplesmente não compareceram ao pleito.

Parte desse resultado se deve, avalia o cientista político Leonardo Barreto, ao exotismo de uma eleição suplementar, sem candidatos ao Legislativo estimulando o comparecimento. Situação semelhante já havia sido identificada em 2017, na eleição extra do Amazonas.

No entanto, para o especialista esse também é o reflexo de um contexto maior, que se verifica de forma mais aguda desde as eleições municipais de 2016, com aumentos significativos e sistemáticos do “não voto”. Em virtude disso, já começou a se mensurar o impacto que uma repetição do fenômeno pode ter para as eleições deste ano – e a notícia é ruim para pré-candidatos que se identificam como de centro, caso do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB).

De acordo com o professor Leonardo Barreto, eleitores se abstêm quando há uma “sensação de indiferença”, ou seja, quando sentem que seu voto tem baixa possibilidade de representar um impacto real. “Uma primeira possibilidade é quando os candidatos têm propostas muito semelhantes ou não inspiram confiança, credibilidade. Outra é quando há um franco favorito e o resultado pode ser dado como certo”, explica.

Identificando a situação brasileira como o primeiro caso, o especialista argumenta que essa falta de confiança deve se manifestar nas eleições como uma rejeição aos políticos e partidos tradicionais, favorecendo aqueles com tendência mais radical. “Nesta eleição, são os radicais que tendem a se engajar e votar mais, enquanto os eleitores moderados, com postura mais ao centro, são os mais desanimados, os que têm se mostrado mais desiludidos com o PSDB e o PT. Isso deve favorecer outros candidatos que fujam desse centro”.

Eleições 2018

Levantamento do instituto Datafolha já identificou a tendência crescente do “não voto”, indicando que 34% dos eleitores não têm candidato quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está fora da disputa. Apesar de ainda existir a expectativa de uma posição do PT indicando um outro candidato, existe um outro fator que pode ampliar o índice quando as urnas forem abertas: “Os institutos de pesquisa não questionam, geralmente, a real intenção do eleitor em comparecer, para além de qual candidato ele votaria se pudesse”.

Ele cita, por exemplo, as eleições dos Estados Unidos em 2016, quando levantamentos indicavam a vitória da candidata democrata, Hillary Clinton, política mais tradicional e tida como favorita, mas a vitória nas urnas foi a do republicano Donald Trump. “Os eleitores dele [Trump], tidos como mais radicais, estavam mais engajados e mais decididos a votar nele. Por outro lado, boa parte do eleitorado democrata, que votaria em Hillary, não compareceu. Essa foi uma das principais causas da derrota dela”, lembra.

Sobre o pré-candidato do PSL, Jair Bolsonaro, Leonardo Barreto avalia que o cenário pode ser favorável para ele, que vem de um partido pequeno e fora do establishment, mas faz uma ressalva: “Pesquisas têm demonstrado que o eleitor do Bolsonaro é, em sua maioria, de 16 a 24 anos. É essa a faixa, principalmente por não ter a obrigação formal de votar até os 18 anos, na qual tradicionalmente se verificam as maiores taxas de não comparecimento”.

Obrigatório?

Boa parte das teorias que pesquisam os motivos que levam ao não comparecimento, e que servem para entender parte do momento, foi formulada a partir da experiência de países, como os Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório. No entanto, apesar de a lei ainda exigir a votação, trata-se de uma regra cada vez mais apenas formal.

“Hoje em dia se brinca que a fila da justificativa é maior do que a fila de votação. E isso acontece porque, mesmo o voto sendo obrigatório, há uma flexibilidade grande de justificativas, formas de regularização e um prazo bastante extenso. Isso diminui o ‘custo do não voto’, os prejuízos de faltar que fazem o eleitor considerar que é melhor comparecer”, explica o cientista político.

A lei brasileira proíbe pessoas que não estejam em dia com a Justiça Eleitoral, entre outras coisas, de obter passaporte e se inscrever em concurso público. No entanto, o brasileiro que não votar tem a possibilidade de justificar o não comparecimento em até sessenta dias, sendo que o título de eleitor só é cancelado após a ausência não esclarecida em três eleições seguidas. Também é cobrada uma multa em um valor simbólico, atualmente em 3,51 reais.