Hamilton explica como foi possível vencer uma corrida que parecia impossível

Se na sexta, a dupla da Mercedes mal conseguia volta lançada por causa do superaquecimento dos pneus, neste domingo não tiveram problemas para dar várias voltas com ultramacios.

Lewis Hamilton sofreu com superaquecimento dos pneus nos treinos livres - Foto: Charles Coates/Getty Images

É provável que quando Kimi Raikkonen e Sebastian Vettel, a dupla da Ferrari, terceiro e quarto no grid do GP da Hungria, neste domingo, viram Lewis Hamilton e Valtteri Bottas, da Mercedes, pole position e segundo colocado, com pneus ultramacios, esboçaram um sorriso sob o capacete. Nos treinos livres de sexta-feira, enquanto Vettel e Raikkonen voavam no Circuito Hungaroring com os pneus ultramacios, Hamilton e Bottas enfrentaram tantas dificuldades que quase não os usaram.

Ao fim da 70ª volta da corrida, no entanto, para surpresa de todos, mesmo dos pilotos da Mercedes, Hamilton recebeu a bandeirada em primeiro, 17seg123 na frente de Vettel, segundo, e 20seg101 de Raikkonen, terceiro. Bottas, com macios desde a 15ª volta, era o segundo colocado até a 64ª volta quando Vettel e Raikkonen o ultrapassaram. A Pirelli distribuiu os pneus médios, macios e ultramacios.

Como colidiu com Vettel e voou parte do aerofólio dianteiro, Bottas perdeu ainda o quarto lugar para o excelente Daniel Ricciardo, da RBR. Uma batida provocada por Marcus Ericsson, da Sauber, na largada, havia mandado o australiano para a 16ª colocação. Bottas acabou punido por tocá-lo, 10 segundos, a duas voltas do final, mas não perdeu mais posições.

Na sexta-feira, os pneus ultramacios traseiros superaqueciam tanto no carro da Mercedes que Hamilton e Bottas tinham de percorrer a volta de saída dos boxes bem devagar, a fim de fazê-los durar a volta seguinte inteira, a chamada volta lançada. Mas não conseguiam.

No último setor do Circuito Hungaroring de 4.381 metros, da saída da curva 11 à linha de chegada, os tempos de Hamilton e Bottas subiam muito. A degradação dos ultramacios era grande e rápida.

No rádio, Hamilton afirmou estar perplexo. Como choveu durante a classificação, no sábado, ninguém sabia se o que Mercedes fez para pelo menos atenuar os muitos e graves problemas com o uso dos ultramacios funcionaria. O terceiro treino livre, no sábado pela manhã, deu alguma indicação positiva para Bottas, mas nada conclusivo.

É por isso que a decisão de Peter Bonnington, engenheiro de Hamiton, Tony Ross, de Bottas, e do estrategista da Mercedes, James Vowles, de que a melhor opção seria largar com os ultramacios surpreendeu até seus pilotos. No sábado, depois de Hamilton estabelecer a pole position, sob chuva, o GloboEsporte.com perguntou o que ele achava, com que tipo de pneu começaria a prova. Respondeu que os macios, por causa da incompatibilidade do ultramacio com seu carro.

O diretor da Pirelli, Mario Isola, comentou com o GloboEsporte.com o que pensa da escolha da Mercedes para a largada:

- Eles sequer foram prudentes de ter um piloto com os ultramacios e o outro com os macios, como fez a Ferrari. Estavam tão seguros de ter resolvido as dificuldades da sexta-feira que mandaram os dois pilotos para a corrida com o ultramacios. E a temperatura do asfalto e do ar não era diferente dos primeiros treinos.

Na realidade, neste domingo estava ainda mais quente. A corrida começou com temperatura ambiente de 34 graus e asfalto a impressionantes 59 graus.

- Eu realmente me surpreendi com a decisão da Mercedes, como acredito que muita gente, afirmou Isola.

Nada melhor do que o principal personagem da história, Hamilton, para explicar a mudança radical do comportamento do modelo W09. O GloboEsporte.com perguntou a ele depois da cerimônia do pódio, na coletiva da FIA, o que havia feito para ser tão rápido e constante neste domingo. Enquanto na sexta-feira não resistiam uma volta em boas condições, capaz de permiti-lo ser minimamente competitivo, Hamilton fez o seu pit stop na 25ª volta. E àquela altura já havia imposto a Vettel, terceiro colocado, com macios, atrás de Bottas, 6seg706.

- De sexta-feira para sábado eu fiz uma grande mudança no acerto do carro. Na sexta eu já tinha revisto o acerto do primeiro para o segundo treino e compreendido não ter seguido a direção certa. Precisava fazer algo diferente. No terceiro treino livre (sábado de manhã), andamos pouco, mas deu para ver que o carro não estava perfeito.

A ajuda de Bottas

Hamilton continuou explicando o que aconteceu para dispor de um carro que o permitisse lutar e vencer a Ferrari em um circuito que é bem mais favorável ao modelo SF71H italiano e mesmo o RB14-TAG Heuer (Renault) de Max Verstappen e Ricciardo que ao seu.

- Sabíamos que Valtteri tinha realizado um treino melhor que o meu na sexta-feira à tarde.

O piloto inglês sugere que o acerto de Bottas lhe foi útil, apesar de não ser tão distinto do seu.

- O ultramacio durou hoje muito mais do que eu imaginava. Eu realmente sofri com eles na sexta-feira, mas como disse, alterei o acerto do meu carro.

A expressão de Vettel na entrevista, ao lado de Hamilton, denotava sua profunda decepção por não ter vencido um GP que na sua mente era para reduzir a diferença de pontos para o adversário na classificação do campeonato, como era também o de Hockenheim, na Alemanha, há uma semana. E nos dois eventos quem celebrou a vitória foi o inglês da Mercedes.

Agora, a diferença aumentou de 17 para 24 pontos. Depois de 12 etapas, restando nove, Hamilton lidera com 213 pontos enquanto Vettel soma 189. Raikkonen está em terceiro, 146, seguido por Bottas, 132. Entre as equipes, os não esperados resultados nas provas de Hockenheim e Hungaroring garantiram a Mercedes o primeiro lugar entre os construtores, com 345 pontos, diante de 335 da Ferrari e 223 da RBR.

No paddock já havia quem comentasse que a Ferrari, mesmo dispondo do melhor conjunto chassi-unidade motriz este ano, pode, de novo, não ser campeã. Seu último campeão foi Kimi Raikkonen, em 2007. Hamilton sabe que o concorrente sentiu o golpe da derrota nas duas últimas etapas. Atingi-lo psicologicamente é uma arma eficiente. Deu para sentir que a mensagem a seguir tinha endereço certo, Vettel, sentado do seu lado:

- Não acho que minha equipe pensou que poderia completar quase 30 voltas com os ultramacios. E até mesmo que eu poderia dar mais 10 ou 15 voltas com eles antes de acabarem totalmente. Meu ritmo era ainda bom.

Vettel ouviu tudo olhando pela janela, com a mesma postura de todo o fim de semana, vivendo no seu próprio mundo, quase sem sorrir, reflexo do erro em Hockenheim enquanto liderava. Ele observava a numerosa torcida holandesa, com todos vestindo camiseta cor laranja, torcedores de Max Verstappen.

O piloto da RBR abandonou ainda na sexta volta, quando era quinto, por causa da quebra do sistema de recuperação de energia cinética, MGU-K, da unidade motriz. Max e o diretor da escuderia austríaca, Christian Horner, revoltados, disseram que iriam pedir uma explicação a Cyril Abiteboul, diretor da Renault.

Hamilton abordou a extraordinária eficiência do seu carro na administração dos pneus, em Budapeste, não por acaso. A capacidade de explorar as características dos pneus Pirelli é uma das principais qualidades do carro da Ferrari, como já foi em 2017. E, de repente, no mais severo exame de resistência e constância da temporada até agora, neste domingo, ao longo das 70 voltas na Hungria, com o asfalto quase a 60 graus, quem se deu melhor foi a Mercedes. Contra todas as indicações.

Mas Hamilton julgou que dar apenas jabs, golpes leves, em Vettel e Raikkonen, não seria suficiente. A Ferrari precisaria levar um bom direto, quem sabe um cruzado devastador. E foi para o ataque:

- Este ano, todos nós sabemos que a Ferrari tem o carro mais rápido, mas eu acredito que você deve somar tudo, performance, estratégia... um campeonato não é apenas ter mais velocidade, mas como você administra as coisas. E eu penso que, globalmente, nós temos, felizmente, realizado um trabalho um pouco melhor até agora.

O pior é que Vettel e Raikkonen sabem ser verdade. A Ferrari não lidera os dois campeonatos, de pilotos e construtores, por questões relacionadas à gestão. Nisso se inclui o trabalho de Vettel e Raikkonen. O alemão, com todo seu talento, capacidade de liderança, estimular o grupo, artífice do avanço da escuderia nos últimos anos, vez por outra comete seus erros. E Raikkonen não tira todos os pontos possíveis da Mercedes. Em outros é a estratégia da Ferrari que não funciona.

Vettel falou sobre o restante do campeonato. A próxima etapa, 13ª de 21, será no Circuito Spa-Francorchamps, na Bélgica, dia 26 de agosto. A F1 faz uma pausa, agora, de três semanas, depois de promover cinco GPs em seis fins de semana seguidos, iniciativa reprovada por unanimidade no paddock.

Vettel com a palavra:

- Nos perdemos o campeonato do ano passado porque nosso carro não era rápido suficiente para o desafio das etapas finais, independente dos problemas de quebras (unidade motriz na Malásia e no Japão). Este ano nosso carro é mais eficiente, mais forte e tem ainda enorme potencial de desenvolvimento. Portanto, estou bastante confiante que cresceremos ainda mais com o que está programado. Deveremos assistir a uma emocionante segunda parte da temporada.