Cerca de 55% das hortaliças são desperdiçadas da produção ao pós-colheita no Brasil

De todo esse percentual, 20% se perde dentro da propriedade durante a produção e os outros 35% ficam por conta das práticas do pós-colheita.

Entre os alimentos com maior índice de perda estão alguns dos mais presentes no cardápio do brasileiro - Foto: Neia Maceno

No Brasil, estima-se que, entre o processo de cultivo e o pós-colheita, as perdas de hortaliças possam representar até 55% de tudo o que é produzido, ou seja, grande parte das folhosas produzidas não conseguem chegar à mesa do consumidor como o desejado. De todo esse percentual, 20% se perde dentro da propriedade durante a produção e os outros 35% ficam por conta das práticas do pós-colheita (armazenamento, transporte, distribuição e consumidor final).

Dados preocupantes que foram apresentados pelo diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Horticultura (IbraHort), Luciano Vilela, que ministrou a palestra “Estatísticas de perdas de hortaliças no Brasil”, dentro da 55ª edição do Congresso Nacional de Olericultura, que acontece de 6 a 10 agosto, no município de Bonito.

Entre os alimentos com maior índice de perda estão alguns dos mais presentes no cardápio do dia a dia: a alface e a couve-flor (35%), a cenoura (30%), a beterraba e a abobrinha (20%), a batata e o tomate de mesa (10%) e o alho (5%).

Vilela explica que 80% dos problemas de perda estão relacionadas com as embalagens, manejo da carga e forma de condicionar esses alimentos. “Muitas das caixas usadas no transporte são as caixas K, embalagem conhecida há mais de 60 anos, usada para transportar querosene durante a segunda guerra mundial, até hoje é a mais utilizada para acondicionamento e transporte de produtos hortícolas”.

A sigla da caixa faz, inclusive, referência ao termo querosene em inglês. “É aquela caixa antiga de madeira em que ao lacrá-la, muita das vezes, se esmaga o tomate que está por baixo”, elucida Vilela que vê na legislação um caminho para tentar resolver ao menos essa questão, “Há o projeto de lei nº 3778/2012, em fase final de tramitação, no Congresso, para que a caixa descartável vá para o lixo e a retornável seja higienizada antes do reuso. Uma forma encontrada para que as caixas K, por exemplo, sejam com o passar do tempo deixada de lado”.

Atualmente, as principais desvantagens desse tipo de caixa estão no custo elevado da madeira, problemas de ordem sanitária, perdas no transporte e complicações de frete. “Buscar por melhores tipos de caixas, higienizar essas caixas, pois muitas das vezes a não higienização leva doença de uma lavoura para outra através dessas caixas e ainda causar riscos à saúde humana”.

O trabalho ainda visa, futuramente, a padronização de embalagem. “Independente do material da embalagem a gente quer um padrão para o empilhamento. Às vezes o produtor está com um saco de laranja, uma caixa K e uma caixa de papelão e, não há uma coerência de formatos e medidas. A perda de 30% na distribuição, muitas das vezes, está aí”.

A prática não só combate ao desperdício como ajuda a afastar problemas relacionados a doenças não transmissíveis tais como: diabetes, hipertensão e obesidade. “O desperdício de alimento não afeta apenas o PIB nacional como também os preços das frutas, verduras e legumes o que reforça a tendência de a população buscar alimentos industrializados, mas que, na dieta humana, pouco ou nada agrega nutricionalmente”.

Um valor perdido que a longo prazo prejudica os cofres públicos que terão de aplicar mais recursos na saúde. “Quanto maior o desperdício, mais esses números tendem a ser repassados ao consumidor e nem todo mundo tem condições de comprar nestas condições, optando pelos alimentos processados por terem maior duração”.

Para reverter todo esse quadro a médio e longo prazo, na visão de Vilela, há também duas alternativas recomendadas para evitar a perda de alimentos da porteira para dentro. A primeira é fazer o processamento de alimentos. “Buscar agregar valor para uma cenoura bifurcada, uma beterraba disformada, por exemplo, através do processamento de alimento, encontrando um outro tipo de mercado e agregando valor para a comercialização”.

Enquanto a segunda opção está em um trabalho de valor social. “É fazer não apenas o processamento desses alimentos como a desidratação para compor uma refeição, tal como a sopa. Nas Ceasas [Centrais de Abastecimento de Mato Grosso do Sul] é possível fazer bancos de alimentos que possa aumentar a vida útil e dar destinação social ao que seria descartado”.

Produção, colheita, armazenamento e transporte, distribuição e consumo foram mensurados dentro desta estática alarmante através do cruzamento de dados de dois estudos. O primeiro, um mapeamento e quantificação de cadeias produtivas da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA Brasil) e o outro encabeçado pelo pesquisador Antônio Gomes, da Embrapa. “Trata-se de uma observação sobre as perdas da produção até a distribuição, ou seja, passando da propriedade, comercialização até chegar ao consumidor final”.

Hortaliças 

É comum que se dê atenção aos grandes commodities, como soja, café, açúcar e carnes; mas que se veja com menor atenção a cadeias produtivas cuja produção é realizada maioritariamente por pequenos produtores e voltada essencialmente para o mercado interno. Esse é o caso da cadeia produtiva de hortaliças que por meio de um estudo em 2016, encomendado pelo CNA, apontou pela primeira vez a representatividade do setor.

Só naquele período a cadeia produtiva de hortaliças no Brasil movimentou um total de R$ 66,23 bilhões entre todos os seus elos. No elo chamado “antes da porteira”, formado pelas organizações fornecedoras de insumos, máquinas e equipamentos agrícolas, o faturamento estimado foi de R$ 11, 17 bilhões.

De um universo de mais de 100 produtos, o trabalho se concentrou nas cadeias produtivas de alface, tomate, batata, alho, cenoura, beterraba, abóbora, cebola, abobrinha, pimentão, couve-flor e coentro e gerou um PIB de R$ 18,63 bilhões.