Parado há 20 meses, Caso Marielly corre risco de prescrever

Em liberdade desde 2011, um dos envolvidos Hugleice da Silva esfaqueou no último domingo a irmã mais velha da moça.

Hugleice (de listrado) quando deixou a prisão em 2011 - Foto: Arquivo/ Campo Grande News

Parado desde fevereiro de 2017, o polêmico caso da morte de Marielly Rodrigues Barbosa, 19 anos, vítima de um aborto malsucedido, em 2011, corre risco de prescrever, ou seja, a perda do direito de punir. Em liberdade desde a época do caso, um dos envolvidos Hugleice da Silva, 35 anos, esfaqueou no último domingo a irmã mais velha da moça, com quem é casado. 

O processo aguarda desde o ano passado um parecer da Justiça se vai ou não a júri popular. A promotora Danielle Borghetti Zampieiri de Oliveira o acompanha desde 2011 e afirma que existe um “risco médio” do caso prescrever. Para que isso não ocorra, ela até chegou a fazer um pedido informal para que o processo fosse analisado. 

A promotora explica que a demora no caso se deu a diversos fatores. Um deles foi a troca de juízes na Vara Criminal de Sidrolândia – onde o caso tramita. “A juíza responsável se ausentou devido a problemas pessoas e de lá para cá uma série de juízes substitutos assumiram a Vara. Porém, como o caso está com os investigados soltos e também devido ao desconhecimento houve a demora”, esclarece. 

Além disso, outros fatores contribuíram a lentidão, como por exemplo, o fato do processo constar dois investigados e cada um ter seu advogado. 

“O Ministério Público cumpriu rigorosamente todos os prazos. Nosso trabalho nesta primeira fase está concluído: pedimos que os investigados fossem a júri popular. Mas, em razão da demora e como se trata de um caso tão complexo o sentimento é de insatisfação”, completa. 

Falta de clamor – Embora o caso tenha chocado o Estado a época, Danielle conta que nunca recebeu a visita de familiares da vítima pedindo Justiça ou mesmo realizada alguma mobilização por parte deles em razão da demora. 

O fato, segundo ela, gera estranheza e uma certa angustia no ponto de vista pessoal. “Não tive apoio de ninguém da família em relação a buscar Justiça no caso. Alias, nem uma camiseta sequer com a foto da menina vimos alguém usar e pedir por Justiça”, descreve. 

Esperança – Mesmo com os percalços do tempo, a promotora espera o julgamento dos investigados. Inclusive, ela explica que se foram a júri, no momento, onde é pedida a atualização de antecedentes, no mínimo deve constar registro sobre o esfaqueamento da irmã de Marielly. 

“Este novo caso deve ‘pressionar’ um pouco a justiça para que dê andamento no de Marielly”, destaca. 

Defesa e Justiça – Em coletiva de imprensa, realizada na última segunda-feira, o advogado de Hugleice, José Roberto da Rosa, também disse que acredita na prescrição do caso. Porém, destacou houve certa estranheza ao tomar conhecimento que seu cliente continuava casado com a irmã de Marielly. 

O defensor aguarda decisão da Justiça para saber se Hugleice vai ou não a júri popular já que fez as considerações finais no processo. 

Sobre o novo caso, ao Campo Grande News o advogado disse que está viabilizando a apresentação do cliente a polícia de Rondonópolis (MT). 

A reportagem tentou contato com o advogado do segundo envolvido no caso, o enfermeiro Jodimar Ximenes Gomes, mas não foi atendida. 

Além disso, a reportagem também tentou contato com o juiz que responde pela Vara onde o caso está, mas foi informado que “o magistrado não pode falar do procedimento em andamento”. 

Facadas – Hugleice e a irmã de Marielly moravam no Jardim Santa Maria, em Rondonópolis (MT). No domingo (18) o homem viu algo que não gostou no celular da vítima e em seguida a esfaqueou. 

Além disso, o suspeito amarrou Mayara e ainda cortou o pescoço dela. Depois do crime, Hugleice fugiu com o carro do casal, um Palio prata. 

Ela segue internada no Hospital Regional de Rondonópolis e segundo funcionários da unidade de saúde o estado de saúde é estável. 

Marielly - Hugleice era casado com a irmã mais velha de Marielly, mesmo assim, inquérito da polícia apontou que os dois mantiveram um relacionamento amoroso. Ele nega ser o pai da criança que a jovem estava esperando, mas confessou tê-la levado á casa do enfermeiro Jodimar Ximenes Gomes para realizar um aborto. 

A jovem saiu de casa, no Jardim Petrópolis, no dia 21 de maio - sábado – de 2011 dizendo que iria resolver um problema e não foi mais vista. A família dela, inclusive Hugleice, e amigos, espalharam cartazes pelo bairro, e-mails e foram à OAB/MS e Assembléia Legislativa. 

O corpo da jovem foi encontrado no dia 11 de junho em um canavial em Sidrolândia, município distante 71 quilômetros de Campo Grande. 

Na versão de Hugleice à Polícia, ele soube do enfermeiro Jodimar Ximenes Gomes, por um colega de trabalho, entrou em contato e combinou R$ 500 pelo pagamento para o aborto. 

No dia combinado com Jodimar - 21 de maio-, Hugleice levou Marielly até a casa dele. Enquanto esperava na calçada, o enfermeiro o avisou que o aborto havia dado errado e que a jovem havia morrido. Os dois então colocaram o corpo na caminhonete de Hugleice e o esconderam em um canavial. 

A polícia suspeitou de Hugleice porque quebra de sigilo telefônico constatou que ele foi a última pessoa com quem ela conversou. Além disso, a empregada de Jodimar o viu na residência onde ela trabalhava e, ainda, porque no local onde o cadáver estava havia embalagens de halls, ‘vício’ do rapaz, conforme informado pela dentista dele à polícia. 

A família de Marielly mentiu à polícia sobre Hugleice. Todos disseram que o rapaz estava em casa no dia 21 de maio, no fim da tarde, quando a operadora de celular dele indicou que ele estava em Sidrolândia. 

Hugleice da Silva e o enfermeiro Jodimar Ximenes Gomes foram indiciados por aborto e ocultação de cadáver. Os dois chegaram a ficar na cadeia, mas conseguiram na Justiça o direito de responder em liberdade.