Veja como as equipes estão se preparando para vencer ou se aproximar da Mercedes em 2019

Série em dois capítulos mostra o que as escuderias estão fazendo para acabar com hegemonia de time.

- Foto: Getty Images

Tanto Christian Horner, diretor da RBR, quanto Yusuke Hasegawa, diretor do projeto Honda, disseram ao GloboEsporte.com, em Spa e em Monza, não haver relação entre o número alarmante de componentes Honda utilizados pelos pilotos da STR, bem acima do admitido pelo regulamento, e a realidade do momento da unidade motriz japonesa: 

- Isso é o resultado das experiências em curso. Aproveitamos a temporada como banco de ensaios de soluções a serem incorporadas à nova unidade motriz Honda, projetada por um grupo multinacional de engenheiros, em Sakura, no Japão, disse Hasegawa. 

Mas atente a isto: Pierre Gasly e Brendon Hartley, pilotos da SRT-Honda este ano, utilizaram oito motores (ICE), enquanto o limite foi três, o mesmo de 2019. Conjunto turbina-compressor (TC), também oito, cinco acima do permitido. Sistema de recuperação de energia térmica (MGU-H), da mesma forma oito, dentre outros “estouros” de limite. Cada vez que os pilotos usam um novo componente dos seis da unidade motriz, além do máximo estabelecido, perdem posições no grid. 

Uma coisa é os pilotos da STR largarem lá atrás. Outra é uma equipe tetracampeã do mundo, de 2010 a 2013, com sede de conquistar títulos, a RBR, ver seus pilotos serem quase excluídos da possibilidade de vitória por causa de punições frequentes, resultado da pouca confiabilidade da unidade motriz. Isso se a resposta de potência a equiparar à da Mercedes, Ferrari e Renault, algo ainda não atingido até agora. 

Em conversa com o GloboEsporte.com, Horner disse ter visitado com Newey a sede da Honda em Sakura, visto o planejamento de Hasegawa e do diretor de esportes da montadora, Masashi Yamamoto, assim como conversou com engenheiros estrangeiros. Não disse quem era, mas sabe-se ser o suíço Mario Illien, bem experiente na área, envolvido no projeto. 

A possibilidade de a RBR não apenas manter-se como a terceira força do campeonato, com 419 pontos, quatro vitórias em 21 etapas, como entrar na esperada luta entre Mercedes e Ferrari (se é que será mesmo assim) depende da eficiência da unidade motriz Honda. A RBR não é a McLaren, cujo maior problema, como ficou claro, este ano, é a reduzida competência de seu grupo de projetistas do chassi. 

O grupo de engenheiros formado por Newey, Pierre Wache, diretor técnico, Rob Marshall, chefe de engenharia, e Dan Fallows, braço direito de Newey na aerodinâmica, deverá desfrutar, agora, da condição de poder melhor integrar o chassi à unidade motriz, não possível com a Renault, desde a volta da equipe da montadora a F1, em 2016. Um lado acusava o outro de esconder o jogo, não disponibilizar todos os dados, com receio de, agora concorrentes, fortalecer o adversário. 

Essa maior integração tende e gerar aumento de performance. É mais um motivo para projetarmos o chassi do modelo RB15 da RBR na classe dos mais eficientes. Talvez ajude: tanto a RBR como a Honda têm suas bases (a segunda dos japoneses) na mesma cidade inglesa próxima a Silverstone, Milton Keynes. 

Quanto aos pilotos, é provável a perda de um pouco de força. O francês Gasly substituirá o capaz Daniel Ricciardo, vencedor na China e em Mônaco, este ano. Mas o holandês Max Verstappen, 21 anos, demonstrou no fim do ano estar em avançado estágio de evolução. Trata-se de um talento raro. 

Quando a unidade motriz Renault esteve no nível de Mercedes e Ferrari, senão superior, no México e no Brasil, o holandês venceu e só não foi primeiro, em Interlagos, por causa do acidente com Esteban Ocon, da RP Force India. Max terminou em segundo. A RBR deverá, ao menos no início, perder como dupla, mas piloto para lutar pela vitória tem e de sobra, Max. Basta dispor de equipamento. 

Gasly tem tudo a provar. Seria saudável para a F1 se, de repente, demonstrar ser da mesma forma um campeão em potencial, até agora não evidente. Sua escolha, e não Carlos Sainz Júnior, como era de se esperar, pelo espanhol ter sido formado para correr pela RBR, tem a ver com o fato de provavelmente ser mais fácil administrar um time com Max e Gasly. Sainz e Max tiveram suas rusgas na STR, em 2015 e parte de 2016. 

É grande a torcida para a associação RBR-Honda produzir carros vencedores. A F1 precisa de mais escuderias envolvidas na luta pelo título. Será triste se depois de meia temporada, por exemplo, ouvirmos Horner e o consultor, Helmut Marko, dizer em público terem descoberto de estarem felizes com a Renault e não saber. 

O piloto melhor colocado da RBR foi Max, quarto, com 249 pontos. Mais três pontos e ficava na frente de Raikkonen, terceiro, com 251. 

Force India 

Esse não será o nome da equipe, ex-Force India. Aguardamos o novo. Como afirmou o ex-piloto de F1 e comentarista da TV inglesa, Martin Brundle: 

- Para cada libra investida na F1, a Force India é a campeã mundial. 

A organização de menor orçamento, inferior até mesmo ao da Sauber, terminou o campeonato de construtores de 2016 e 2017 em quarto, o melhor dos normais, fora Mercedes, Ferrari e RBR. Este ano, só pôde contar com o projeto original de 2018, o kit completo, no GP da Espanha, sexto do ano, dia 13 de maio. E introduziu um único pacote de desenvolvimento, no GP de Singapura, 15º, dia 16 de setembro. 

Não fosse a compra pelo grupo de empresários liderado pelo canadense Lawrence Stroll, pai do piloto Lance Stroll, 20 anos, da Williams em 2017 e 2018, a Force India encerraria suas atividades depois do GP da Hungria, 12º do ano, dia 29 de julho. A informação foi repassada ao GloboEsporte.com por seu diretor, Otmar Szafnauer, durante entrevista. 

Da etapa de abertura do campeonato, em Melbourne, à de Budapeste, Hungria, 12ª, dia 29 de julho, a então Force India havia somado 59 pontos. A partir do GP seguinte, na Bélgica, dia 26 de agosto, a nova organização, Racing Point Force India, começou uma nova história, sem ponto algum. E nas nove corridas desde então obteve 52 pontos, sétima colocada. A meta era terminar em sexto, na frente da McLaren, com 62. 

Esse é o dado mais importante da ainda Racing Point, escuderia com sede em frente ao Circuito de Silverstone: dispõe, agora, de fluxo de caixa para projetar, construir e desenvolver seu carro. Se diante de tantas dificuldades realizou trabalho admirável, parece possível poder ir além, agora. Szafnauer não esconde os planos ousados do grupo: 

- Lutar pelo terceiro lugar entre os construtores em 2019. 

Lawrence Stroll é um bem-sucedido homem de negócios. Bastante arrojado. Ele já deu sinal verde para Szafnauer escolher com seus homens um local para a construção da nova sede, onde um novo túnel de vento seja integrado à fábrica. Hoje encontra-se a dez quilômetros de distância. O diretor já está contratando engenheiros, segundo falou na entrevista, para a área de aerodinâmica. 

A temporada de 2019 será de transição para a escuderia, mas as perspectivas são desde já positivas, pela razão exposta, dispor dos recursos antes inexistentes. Para o salto de performance, pensar em lutar pelas primeiras colocações, será preciso esperar, como afirmou Szafnaeur, a entrada em funcionamento da nova sede, com número bem maior dos menos de 400 integrantes de hoje. 

O projeto de 2019 está a cargo dos competentes Andrew Green, diretor técnico, daqueles de pôr a mão na massa, ao responder pela aerodinâmica também, enquanto a administração técnica de pista fica com Tom McCullough e a direção esportiva, Andy Stevenson. 

Os pilotos serão o constante e aguerrido Sergio Pérez, mexicano de 28 anos, e Lance. Vai ser interessante acompanhar como reagirá a equipe tendo o filho do dono como piloto. Mais: Lawrence só está fazendo esse grande investimento por entender não ser possível a Lance crescer na F1 se permanecesse na Williams. 

Pérez contribuirá no orçamento com 15 milhões de euros (R$ 67 milhões), de seu patrocinador, a Telmex. Portanto está lá pela capacidade de piloto e investir também. 

O piloto mais bem colocado da Force India e depois Racing Point foi justamente Pérez, oitavo, com 62. Para o mundial de pilotos a FIA considera os pontos da Force India também. 

Haas 

A escuderia americana vai para sua quarta temporada na F1. A exemplo da Racing Point, a principal diferença em relação aos anos anteriores será dispor de um orçamento maior. O quinto lugar entre os construtores nesta temporada elevou o valor a ser recebido pela Haas da FOM. 

Gene Haas, proprietário, deverá ficar com algo como, no total, 55 milhões de euros (R$ 245 milhões), quantia semelhante à paga para a Ferrari pelo fornecimento da unidade motriz, transmissão, o conjunto traseiro de suspensões, sistema hidráulico, tudo permitido pelo regulamento, além do uso do túnel de vento e a assessoria técnica recebida dos italianos. 

Outra boa notícia é a assinatura de um contrato plurianual de patrocínio com a empresa produtora do energético inglês Rich Energy. Ela tentou comprar a Force India, mas o administrador da equipe designado pela justiça inglesa, Geoff Rowley, avaliou a proposta de Lawrence Stroll como a melhor, por lhe garantir maior perspectiva futura. 

Assim, a Rich Energy decidiu patrocinar a Haas. Acredita-se em um investimento anual de 25 milhões de libras (R$ 125 milhões). Gene Haas vinha investindo algo como 90 milhões de dólares (R$ 340 milhões) de recursos próprios, por ano. Além da Ferrari, a Haas paga a Dallara, para construir boa parte das peças concebidas e desenhadas pelo grupo técnico liderado pelos experientes Rob Taylor, diretor, e Ben Agatangelou, aerodinâmica, na sede de Banbury, na Inglaterra. 

O empresário americano gosta tanto de automobilismo que tem uma escuderia de sucesso na Nascar, associado ao astro da categoria Tony Stewart, a Stewart-Haas Racing, duas vezes campeã. 

Gene e seu atuante diretor geral na F1, o italiano Guenther Steiner, decidiram manter a mesma dupla de pilotos pelo terceiro ano seguido, o francês Romain Grosjean, 32 anos, e o dinamarquês Kevin Magnussen, 26. Como a Haas utiliza a base do carro da Ferrari, é de se esperar que em 2019 dispute outra boa temporada, talvez até melhor, quem sabe lutando pelo quarto lugar, sua meta. O orçamento maior vai ajudar. 

O piloto mais bem colocado da Haas em 2018 foi Magnussen, nono, com 56 pontos. Entre os construtores ficou em quinto, com 93 pontos. A Renault, quarta, somou 122. 

Sauber 

Para muitos profissionais da F1, o time suíço foi o que mais bem desenvolveu o carro durante o ano, guardadas as proporções. Na segunda parte do campeonato, foi comum ver Leclerc, um campeão do mundo em potencial, chegar no Q3, aos sábados, e receber a bandeirada entre os dez primeiros. Mas últimas seis etapas, por exemplo, conquistou quatro sétimas colocações, sendo três nos três últimos GPs, México, Brasil e Abu Dhabi. 

Isso foi o resultado de um orçamento melhor e, como na Racing Point, disponibilidade de fluxo de caixa, dinheiro para estudar novos componentes, fabricá-los e colocar no carro, algo que a Sauber fazia muito pouco, apesar de sua sede, em Hinwil, próxima a Zurique, ser imponente. 

Mas de nada adiantaria contar com recursos se o grupo técnico não fosse capaz. A Sauber recebeu, este ano, o desenhista-chefe da Ferrari, Simone Resta. Virou diretor técnico. Não era ele quem concebia os carros da escuderia italiana, mas participava. A Sauber tem ainda outro italiano respeitado no meio, Luca Furbatto, ex-McLaren e STR, diretor de engenharia, e o especialista em aerodinâmica Nicolas de Beaupreau, francês, do grupo de James Allison, ex-Lotus, Ferrari e hoje na Mercedes. 

A Sauber também não funcionaria, apesar de técnicos capazes, se não tivesse um líder com conhecimento de causa, definisse com precisão os objetivos e as metas realistas a serem alcançadas, o francês Frederic Vasseur. Eles contam ainda com a visão de um homem de negócios disposto a investir, o italiano Pascal Picci, dono da financeira Longbow, com sede na Suíça, e da escuderia desde julho de 2016. 

O oitavo lugar entre os construtores vai permitir a Sauber receber um valor maior da FOM da décima e última colocação de 2017. 

O acordo entre o ex-presidente da Ferrari, Marchionne, e Picci, segue de pé. A Sauber divulga nos seus carros a marca Alfa Romeo, do grupo Fiat, recebe um piloto indicado pela Ferrari, em 2019 o italiano Antonio Giovinazzi (em 2018 foi Leclerc), e em troca Picci não paga pelo fornecimento da unidade motriz e transmissão. 

É de interesse da Ferrari, portanto, a boa performance da Sauber. Os reflexos dessa relação de proximidade com a escuderia suíça, bem como com a Haas, foram bem sentidos este ano em especial. Todos saíram ganhando. 

Pois é o grupo formado por Resta, Furbatto, Beaupreau e o desenhista-chefe, o francês Eric Gandelin, o responsável pelo modelo C38-Alfa Romeo (Ferrari) de 2019. 

A outra boa notícia é a chegada de um campeão do mundo, ainda com fome de conquistas, apesar dos 39 anos, para a equipe, Raikkonen. Junto de Giovinazzi, 24, formam uma dupla promissora, diante da possibilidade de o carro da Sauber ser ainda mais eficiente do já veloz usado este ano. 

O piloto mais bem colocado da Sauber, em 2018, foi Leclerc, 13º, com 39 pontos. O outro piloto, o sueco Marcus Ericsson, somou 9. 

Nesta sexta, será a vez de visitarmos as sedes de Mercedes, Renault, McLaren, STR e Williams.