Em ano difícil, Etiene Medeiros vai atrás de tricampeonato mundial inédito

Nadadora lidou com cirurgia no ombro e doença de irmão.

- Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA

Foi um ano mega difícil. Eu realmente tomei vários socos na cara. 

É dessa maneira, sem rodeios, que Etiene Medeiros resume como foi o seu 2018. Um período que lhe impôs inúmeros desafios. Mas que, espera, termine bem. 

O fiel da balança será o Campeonato Mundial em piscina curta (25m) de Hangzhou, na China, que começa nesta segunda-feira 10 (na terça-feira 11, no horário chinês). A pernambucana é um dos destaques da delegação brasileira, que conta com outros 19 representantes. 

Etiene é favorita à medalha de ouro nos 50m costas e, se obtiver o triunfo, vai se sagrar tricampeã mundial da prova - feito inédito na natação brasileira. Ela também detém, desde o Mundial de Doha 2014, o recorde mundial da distância (25s67). 

Uma nova subida ao pódio será importante para refazer as convicções tão abaladas depois de seguidas frustrações, pessoais e profissionais. 

Etiene teve um 2017 empolgante. Conquistou, no Mundial de Budapeste, a primeira medalha de ouro de uma nadadora brasileira em um Mundial em piscina longa (50m), a mesma utilizada para a disputa dos Jogos Olímpicos. Confiante, ela esperava que o 2018 fosse solidificar sua condição de atleta da elite internacional, com chance de disputar finais olímpicas e em mundiais - nos Jogos do Rio, em 2016, ela foi finalista nos 50m livre; os 50m costas não são disputados em Olimpíadas. 

Mas, em janeiro, ela se viu obrigada a passar por uma cirurgia para retirar um cisto no ombro direito. O prolongado período de recuperação fez com que ela perdesse o Troféu Brasil, realizado em abril no Rio de Janeiro, que era seletiva para o Campeonato Pan-Pacífico de Tóquio - que foi a principal competição em piscina longa no ano. 

O retorno às piscinas só ocorreu em junho, em um Campeonato Paulista. Nos 30 dias seguintes, ela viajou à Europa para participar de eventos na Itália e na França, ainda longe da condição ideal. 

E foi ainda distante do seu potencial pleno que ela disputou o Troféu José Finkel, em agosto, que era classificatório para o Mundial de Hangzhou. Ela obteve índice para os 50m costas. 

- Eu tenho grandes chances de conseguir o tricampeonato, sim. Minha cabeça está totalmente voltada para isso. Mas eu acho que é passo a passo. A gente tem, na natação, que passar por eliminatórias, semifinal e final. São três estágios e não posso botar os carros na frente dos bois. Eu tenho picos de ansiedade, mas é normal - afirmou, em entrevista ao GloboEsporte.com. 

Enquanto todos acompanhavam a luta de Etiene para retomar o ritmo na piscina, ela vivia uma batalha silenciosa fora do circuito esportivo. Seu irmão, Jamison, que também é seu empresário, foi acometido por um tumor no cérebro. A doença exigiu que passasse por uma cirurgia de mais de dez horas e ainda lhe rende sequelas - muitas dificuldades para se movimentar e até falar. A família Medeiros, que é do Recife, teve de se instalar praticamente em tempo integral em São Paulo para que o tratamento prosseguisse. 

Na semana em que o Troféu José Finkel, Jamison prestigiou a irmã na arquibancada do Esporte Clube Pinheiros. Até hoje a nadadora mostra dificuldade ao falar do assunto. 

- É aquela coisa, a gente nunca espera pelo que pode acontecer em nossa vida. Eu realmente tomei vários socos na cara: pessoal, em relação à cirurgia, e familiar, em relação ao meu irmão. A lição que eu tiro para mim é viver um dia de cada vez. Dar sempre o máximo. Não ficar pensando no futuro ou no que pode acontecer. Fazer aquilo dentro do que posso no dia. Meu foco é 2020, mas estou aproveitando cada momento - disse a atleta de 27 anos. 

Ela espera que o Mundial da China seja o seu momento. Com ou sem tricampeonato. Com ou sem medalha. Mas, preparada, ela está. 

- Estou muito confiante nesta reta final antes de nadar. Mas entrego a Deus, que seja o que Ele quiser. Sei que eu fiz meu papel e me dediquei ao máximo para superar esse período difícil. O que tiver de ser, será.