Mourinho demitido do United: é hora de reconectar com a realidade

José Mourinho não é o único culpado, mas trabalho ruim no United o avisa.

José Mourinho, Ajax x Manchester United - Foto: Reuters / Andrew Couldridge

3 anos e 53 minutos. É o tempo que separa a demissão de José Mourinho do Chelsea, em 2015, da do Manchester United, oficializada hoje. Até os argumentos são parecidos: crise de relacionamento com jogadores, reclamações excessivas, time jogando mal e longe da liderança, poucos títulos - apenas duas taças. Pouco para o United e para o próprio técnico, que aos 56 anos, se vê num momento decisivo da carreira: continua a fracassar ou busca mudar? 

É difícil decifrar o trabalho de Mou no clube. Taticamente, a ideia sempre foi a mesma: a equipe se montava no 4-2-3-1 e atacava de forma rápida, geralmente com triangulações pelos lados e inversão de lado para chegar na área. Faz o gol, recua e joga fechadinho, buscando os contra-ataques. Goste ou não, é uma ideia, e foi assim que o Chelsea fez 6 gols no Arsenal na campanha vencedora de 2015. Assim o Real e a Inter venceram o Barcelona no auge. O que poderia dar de tão errado, então? 

O United é o quarto clube mais rico do mundo, e gastou mais de R$ 1 bilhão de contratações. Se Matic e Lukaku são titulares absolutos, Bailly, Mkhitaryan, Fred, Dalot e Lindelof ainda não vingaram e Sanchéz e Pogba chegaram como estrelas e vivem no banco. Nesse ano, apenas 4 nomes e reclamações públicas de Mourinho sobre a política de contratação do clube. O custo-benefício de Mourinho é péssimo. Mas ele não é o único culpado pela crise que o clube vive. 

Gastar muito não significa gastar bem 

O elenco do United lembra muito do grupo do Flamengo: é desequilibrado. Tem muitos nomes bons para uma posição (pontas e meias) e apenas um nome para outra (volante e zagueiros). Rashford, Martial, Sánchez, Mkhitaryan disputavam duas vagas, enquanto a defesa sofre com Jones e Smalling, e Valencia precisa correr por todos. Pogba alternava bons momentos quando o time recuava com péssimos jogos quando precisava jogar mais cadenciado, propondo o jogo. Com isso, restava confiar que Fellaini entrasse para cumprir uma função tática específica, de entrar na área e fazer gols. Ou em mudanças pensando no adversário, como esse 5-3-2 contra o Tottenham. 

Só que o elenco do United simplesmente não casa com a filosofia tática de Mourinho. Herrera e Mata formam um meio-campo de troca de passe e articulação, não de velocidade e chegada, como Fred. Além disso, há o desejo de revelar jovens, o que nunca foi o forte do técnico. Mourinho gosta de jogador com personalidade, forte, que entenda ele. Não é por acaso que Ibrahimovic deu tão certo. Esse claro descompasso rendeu broncas públicas em Ed Woodward, magnata do clube. 

Gestão tática e emocional de Mourinho só agrava a crise 

Ao invés de se adaptar ao contexto e elenco, Mourinho radicalizou. Procurou seguir ainda mais as metodologias e ideias que o fizeram campeão, o que rachou ainda mais o elenco. Nos jogos "grandes", Mourinho usava de um artifício polêmico - a marcação por encaixes longos. Muitas vezes, colocava Martial ou Valencia para perseguir o jogador mais criativo do rival (exemplo abaixo). Em resumo, uma equipe fisicamente forte. Pode dar certo? Sim, se você contar com jogadores concentrados e fisicamente resistentes. Não é o perfil do franzino Herrera ou do técnico Jones. O time só se cansava mais e afogava no segundo tempo. 

Depois, no próprio método de gerir o elenco: pelo caos e desconforto. Mourinho mexe constantemente o time, briga com a imprensa, fala mal de jogador, bufa e faz seu teatro particular. É tudo calculado para mexer com os brios do jogador e tirá-lo da zona de conforto. Uma tática cada vez mais ultrapassada. Porque hoje o jogador não vive mais na bolha do CT. É conectado, curioso, ávido. Entende o mundo, é mais maduro e também individualista. Mourinho falhou ao não conseguir se conectar com esses jovens milionários que querem brilhar, mas ao modo deles. 

“Mourinho gosta de trabalhar o lado psicológico do atleta. Quer sempre que o jogador esteja feliz para jogar. Quando você acha que não vai jogar, você joga. Quando você acha que está bem, ele te poupa de alguma partida. Às vezes parece ser difícil trabalhar com ele, mas ele faz isso porque cobra ao máximo. Ele te tira da zona de conforto” – Oscar 

E o futuro? 

O trabalho do treinador não muda seu patamar. Mourinho ainda é genial e mudou para sempre o futebol. É capaz de tirar e mesclar conceitos como poucos, como a final da Europa League de 2016/17, onde amarrou o Ajax com a ideia da "zona pressionante". Ou de montar um time competitivo o suficiente para ser segundo lugar de Guardiola, inclusive vencendo o City numa virada incrível por 3 a 2 - a única vez que venceu o duelo com seu opositor ideológico. 

Mas seus feitos cada vez mais parecem insuficientes. Seja pela expectativa altíssima que ele mesmo gera com suas declarações ou polêmicas, seja pelas cifras altas envolvidas. Ou pelo próprio passado imenso do técnico. Mourinho pode e deve lamentar a terceira demissão em 5 anos, assim como o rumo diferente que Rui Faria, seu auxiliar há 17 anos, tomou. Mas sentar numa cadeira e aproveitar os milhões ganhos não é de sua história. Nem de sua trajetória. 

Aos 70 anos, Felipão se mostrou empático e gestor emocional na campanha do deca no Palmeiras. Aos 59, Carlo Ancelotti teve a humildade de se repensar no Napoli. Jurgen Klopp deixa para trás seu futebol "rock´n roll" tão característico para fazer o Liverpool mais completo. Exemplos não faltam para que Mourinho repense sua carreira e a si próprio. Porquê dessa vez pode não ter um outro gigante em busca de salvação que aposte nele.