Brasil perde cinturões, Ásia ganha força e Fedor renasce no Bellator

Seis brasileiros perderam seus títulos em três dos principais eventos da atualidade.

Bibiano Fernandes (dir.) reclama ao ouvir o anúncio de sua derrota para Kevin Belingon no ONE: maior campeão da história do evento perdeu cinturão - Foto: Divulgação

Nos últimos anos, os lutadores brasileiros vinham perdendo cinturões no UFC, mas mantinham uma boa porcentagem dos títulos nas outras principais organizações de MMA no mundo. Em 2018, entretanto, a crise brasileira se espalhou pelo cenário internacional. Nos oito eventos de maior expressão do mundo (Bellator, ONE Championship, Invicta FC, Absolute Championship Berkut, M-1 Global, Fight Nights Global, KSW e Rizin Fighting Federation), seis representantes do Brasil começaram o ano como campeões e chegaram a 2019 sem seus cinturões: Fábio Maldonado (Fight Nights), Douglas Lima e Rafael Carvalho (Bellator), Alex Silva, Adriano Moraes e Bibiano Fernandes (ONE) - isso sem contar com os campeões que abriram mão de seus títulos para assinar com outras organizações, como Jennifer Maia (Invicta FC) e Ariane Lipski (KSW).

Douglas Lima deu adeus ao título dos pesos-meio-médios do Bellator, segundo maior evento dos EUA, logo no início do ano, em 20 de janeiro, superado por Rory MacDonald, oriundo do UFC. Em maio, foi a vez de Alex Silva perder o cinturão peso-palha do ONE em sua primeira defesa, derrotado pelo japonês Yoshitaka Naito por decisão dividida. Uma semana depois, Fábio Maldonado foi nocauteado pelo ex-UFC Nikita Krylov e perdeu o cinturão peso-meio-pesado do Fight Nights Global (o ucraniano, aliás, abriria mão do título poucos meses depois para retornar ao Ultimate).

Para terminar o péssimo mês de maio do MMA brasileiro, Rafael Carvalho sofreu um nocaute técnico contra o ex-UFC Gegard Mousasi para se despedir do cinturão peso-médio do Bellator. Um mês depois, foi Adriano "Mikinho" Moraes quem sofreu uma controversa derrota por decisão dividida contra o campeão interino Geje Eustaquio e perdeu o cinturão peso-mosca do ONE. Mas talvez a perda mais dolorosa tenha sido a que veio em novembro no ONE: recordista de defesas bem sucedidas da organização, com sete, Bibiano Fernandes foi derrotado pela primeira vez em quase oito anos numa decisão dividida contra Kevin Belingon, que levou o cinturão peso-galo.

No grupo dos maiores eventos do mundo, só sobraram Patrício "Pitbull" Freire, Virna Jandiroba e Bruno "Blindado" Silva como brasileiros campeões. Pitbull, que está em seu terceiro reinado no peso-pena do Bellator, defendeu seu cinturão duas vezes, com vitórias por pontos em lutas muito disputadas contra Daniel Weichel e Emmanuel Sanchez, e se tornou recordista em vitórias na organização (16). Jandiroba derrotou Mizuki Inoue por decisão dividida em março para conquistar o cinturão peso-palha do Invicta FC, que defendeu ao bater Janaisa Morandin por finalização em setembro. Bruno Blindado se juntou ao rol dos campeões em novembro, ao nocautear o russo Artem Frolov, até então invicto, e conquistar o cinturão peso-médio do M-1 Global.

Bellator encontra sucesso com GPs e "revive" Fedor Emelianenko

O segundo evento de MMA dos EUA ganhou o público americano ao reviver o formato dos GPs. Primeiro veio o torneio dos pesos-pesados, com grandes nomes como Fedor Emelianenko, Rampage Jackson, Frank Mir, Chael Sonnen e Roy Nelson. O torneio praticamente ressucitou a lenda do "Último Imperador", abalada após uma derrota rápida para Matt Mitrione em 2017. Fedor atropelou Frank Mir em 48s em abril, e massacrou Chael Sonnen no primeiro round em outubro para se classificar à final. Ele vai encarar em janeiro de 2019 o ex-UFC Ryan Bader, que passou por King Mo Lawal e Mitrione.

O sucesso do formato levou o Bellator a organizar um torneio também no peso-meio-médio, que ficou ainda mais valorizado após um acordo promocional com o rapper e empresário 50 Cent, sob o qual o artista se comprometeu a pagar US$ 1 milhão ao vencedor. Além disso, o campeão atual da categoria, Rory MacDonald, está no torneio, o que significa que o cinturão está em jogo durante o GP. Até o fim de 2018, duas das quartas de final foram disputadas, e ambas foram vencidas por brasileiros: Douglas Lima, que aguarda o resultado de Paul Daley x Michael Page, e Neiman Gracie, que vai disputar o cinturão já na semifinal contra o vencedor entre MacDonald e Jon Fitch.

No mais, o Bellator tirou mais um grande nome do UFC em 2018: o brasileiro Lyoto Machida, cerca de dois meses após o "Dragão" nocautear Vitor Belfort no UFC Rio. Lyoto estreou com uma controversa vitória sobre Rafael Carvalho em dezembro. Outras "pequenas vitórias" do Bellator sobre seu maior rival: organizou não só um, mas dois eventos no Havaí, estado natal de Max Holloway e BJ Penn e sonho antigo do Ultimate, e viu o UFC desistir de um evento em pay per view marcado para a mesma data que o Bellator 214, que terá a final do GP dos pesados.

Professional Fighters League estreia bem com formato à la NFL

Evento "herdeiro" do WSOF, a Professional Fighters League (PFL) estreou em 2018 com um formato diferente, inspirado nas grandes ligas de esportes coletivos dos EUA, como a NFL e a NBA: uma "temporada regular", em que os lutadores fazem o mesmo número de lutas e conquistam pontos para a classificação geral, e playoffs, com os oito melhores classificados em cada categoria se enfrentando em cruzamento olímpico. O vencedor de cada uma das seis categorias leva US$ 1 milhão.

Alguns lutadores não conseguiram fazer a segunda luta por causa de lesão, houve algumas decisões polêmicas dos árbitros e comissões atléticas que afetaram a classificação, mas, em geral, o formato funcionou, com lutas empolgantes e resultados surpreendentes. Também ajudou que a grande aposta da organização, a bicampeã olímpica de judô Kayla Harrison, venceu suas duas primeiras lutas no MMA e chamou atenção da mídia. A organização fez o último evento de 2018 na véspera do Ano Novo em Nova York, e dois brasileiros saíram campeões e milionários: o peso-leve Natan Schulte e o peso-pesado Philipe Lins.

Ásia ganha força com ONE Championship e Rizin

Outrora o mercado dominante do MMA graças ao Pride, a Ásia esteve em segundo plano pela maior parte desta década, mas começou a ressurgir graças a movimentações ousadas de dois de seus principais eventos este ano. Baseado em Cingapura, o ONE Championship foi o evento que mais se projetou em 2018. Primeiro, lançou o Super Series, divisão com lutas de boxe, kickboxing e muay thai, e atraiu nomes que outrora competiriam no K-1, Glory ou Bellator Kickboxing, como Nieky Holzken e Giorgio Petrosyan.

Mas a movimentação que abriu os olhos do mundo ocidental para o ONE foi a inédita troca fechada com o UFC em outubro, em que cedeu seu ex-campeão peso-meio-médio Ben Askren pelos direitos do ex-campeão peso-mosca do Ultimate Demetrious Johnson, recordista de defesas de cinturão bem sucedidas na organização americana (11) e considerado entre os melhores lutadores peso-por-peso do mundo. Poucos dias depois, a companhia asiática anunciou que também contratou Eddie Alvarez, ex-campeão peso-leve do UFC e Bellator; em dezembro, contratou ainda Sage Northcutt, revelado por Dana White e uma vez visto como sensação jovem do UFC.

Para não ficar muito para trás, o Rizin Fighting Federation, evento japonês comandado pelo ex-presidente do Pride, deu um susto no mundo inteiro em novembro ao anunciar o retorno ao ringue de Floyd Mayweather Jr. - que estava presente na coletiva de imprensa - para um combate contra a jovem revelação do kickboxing Tenshin Nasukawa em seu evento de véspera de Ano Novo. Após Mayweather desmentir a informação alguns dias depois, foi esclarecido que a luta, de boxe, seria apenas uma curta exibição, que não vai valer para os carteis dos lutadores. Ainda assim, a presença do pugilista mais bem pago da história trouxe atenção extra ao evento. O Rizin não parou por aí: fechou uma parceria com o Bellator para que o campeão peso-galo do evento americano, Darrion Caldwell, disputasse o cinturão da categoria contra o japonês Kyoji Horiguchi, vencedor do GP peso-galo da companhia. Mayweather acabou vencendo Nasukawa por nocaute técnico no primeiro round, e Horiguchi bateu Caldwell por finalização no terceiro round.

ACB cancela eventos e anuncia fusão com eventos russos

Após um crescimento assombroso em 2017, o Absolute Championship Berkut (ACB) viveu um 2018 de montanha russa no MMA. A organização começou o ano a todo vapor, com 11 eventos nos primeiros seis meses, incluindo uma visita ao Brasil em março e torneios no Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia, Itália, Inglaterra e Austrália. No entanto, em julho, a organização cancelou quatro eventos, um deles com menos de uma semana de antecedência; algumas semanas depois, o ACB anunciou que estava cancelando quase todos seus eventos de MMA para passar por uma reestruturação, e que manteria apenas dois cards na Rússia em 2018.

Tudo fez sentido em dezembro, quando a companhia anunciou a compra do WFCA, também conhecido como Akhmat, e do Tech-Krep FC, para formar um novo evento nomeado Absolute Championship Akhmat (ACA). A intenção é formar a maior organização de MMA da Rússia e competir em nível global com outras companhias. Dono da empresa, Mairbek Khasiev disse ainda que pode comprar mais eventos no futuro.