Após 8 anos do crime, envolvidos no aborto que matou Marielly vão à Júri Popular

O enfermeiro Jodimar Ximenes, que fez o aborto e o cunhado da vítima, Hugleice da Silva, vão sentar no banco dos réus.

Hugleice em novembro de 2018, depois de ser preso pela PRF em Dourados - Foto: Campo Grande News Interna: Marcos Tomé/Região News/Reprodução

Transcorridos 8 anos do crime e do Ministério Público ter aceito a denúncia, os dois envolvidos no aborto que resultou na morte de Marielly Barbosa em maio de 2011, vão à Júri Popular. O enfermeiro Jodimar Ximenes, que fez o aborto malsucedido e o cunhado da vítima, Hugleice da Silva, vão sentar no banco dos réus diante dos jurados. A sentença de pronúncia foi dada na última sexta-feira Dia Internacional da Mulher, pelo juiz Fernando Moreira da Silva, da Vara Criminal de Sidrolândia.

Na decisão, o juiz pronunciou os dois acusados pelos crimes de provocar aborto com o consentimento da gestante - que prevê pena de reclusão, de um a quatro anos - com a qualificadora de lesão corporal de natureza grave que acaba em morte, aumentando a pena em um terço. Além disso, incluiu o crime de ocultação de cadáver que define a punição de reclusão de um a três anos e multa.

Jodimar ficou preso só oito meses. Em abril de 2012 conseguiu habeas corpus e desde então está em liberdade, mas obrigado a cumprir algumas medidas cautelares, como se apresentar mensalmente no Fórum. Ele continuará nesta condição até o julgamento. 

Em relação a Hugleice da Silva, o juiz decretou a prisão preventiva, levando em conta a autoria confessa do crime, ao ter induzido Marielly ao aborto e, principalmente, pela recente tentativa de homicídio contra a mulher, Mayara Barbosa, irmã da vítima, ocorrida em 2018.

Apesar de já estar preso em Mato Grosso por esse crime, o decreto de prisão em Mato Grosso do Sul o mantém na cadeia, em caso de liberdade na outra ação. “Entendo que sua liberdade constituiu risco à ordem pública, de modo que necessário sua prisão”, avalia o magistrado.

Hugleice confessou que levou a jovem até a casa de Jodimar, em Sidrolândia, para fazer o aborto, e depois, quando o procedimento deu errado, junto com o enfermeiro, colocaram o corpo em seu carro e o jogaram em um canavial. Ele foi preso em julho de 2011, mas acabou sendo colocado em liberdade dois meses depois, por decisão do Tribunal de Justiça.

O caso

O caso começou a tramitar na Justiça em agosto de 2011 e, naquele ano, a denúncia foi acolhida nos termos do MPE (Ministério Público Estadual), acusando Hugleice e o enfermeiro Jodimar Ximenes Gomes nos artigos 126 c/c 127 do Código Penal (provocar aborto em gestante mediante grave ameaça o violência) e 121 (destruição e ocultação de cadáver).

A promotora Danielle Borghetti Zampieri de Oliveira explica que a demora do processo é decorrência de diversos fatores. Um deles foi a troca de juízes na Vara Criminal de Sidrolândia – onde o caso tramita. “A juíza responsável se ausentou devido a problemas pessoais e de lá para cá uma série de juízes substitutos assumiram a Vara. Porém, como o caso está com os investigados soltos e também devido ao desconhecimento houve a demora”, esclarece.

Marielly tinha 19 anos quando morreu. Ela desapareceu após ser levada de Campo Grande até Sidrolândia pelo cunhado para realizar o aborto. Os dois tinham um relacionamento sexual e não queriam a criança. Hugleice teria contratado os serviços do enfermeiro Jodimar por R$ 500. No dia 21 de maio, a jovem morreu após o aborto malsucedido. Os dois acusados levaram o corpo da vítima até a estrada vicinal a 4,2 km da rodovia MS-162, na caminhonete do cunhado da vítima. Ele confessou o crime, na época, e foi preso.

Fuga e prisão 

– Hugleice mudou-se para Rondonópolis com a esposa, irmã de Marielly logo depois da grande repercussão do caso em Mato Grosso do Sul. No dia 18 de novembro do ano passado tentou matar Mayara depois de ver uma foto dela com o vizinho. Enciumado, amarrou e esfaqueou a jovem e, em seguida, fugiu com o carro da família. Ela conseguiu se soltar e pedir ajuda.

Hugleice foi preso no dia 22, na BR-163, em Dourados. Como o processo em MS não tinha qualquer trâmite que justificasse manutenção da prisão no estado, foi levado para prisão em Mato Grosso.