Quais são os limites do seu joelho? Se doer ou inchar, é hora de segurar o passo e a empolgação

Envelope de função é o termo para a medida que indica a quantidade de carga que pode ser aplicada num joelho por um determinado período sem causar lesão

Quando um corredor faz uma transição repentina para um volume maior de treinamento sem a necessária adaptação, não é incomum que sofra lesões — - Foto: Istock Getty Images

Já aconteceu de você se lesionar ao correr a mesma distância no mesmo pace de outras pessoas? Por outro lado, já percebeu que outras pessoas não conseguem acompanhar seu ritmo de treino e estão sempre visitando clínicas de medicina esportiva?

A resposta do porquê de pessoas com biotipos e condicionamentos semelhantes terem desempenhos diferentes e algumas terem mais lesões do que outras está em um termo conhecido em medicina esportiva como envelope de função.

O termo foi criado por um autor americano chamado Scott Dye em 1996. Dye é conhecido entre nós, especialistas em joelho, como um dos maiores estudiosos do seu funcionamento nos esportes. Ele compara o joelho a uma transmissão mecânica biológica, cujo propósito é aceitar, redirecionar e dissipar cargas biomecânicas do corpo. Trata-se de uma grande superfície de sustentação deslizante, com um sistema de transmissão vivo de automanutenção e autorreparação. Para Dye, os ligamentos podem ser visualizados como um sistema articulado e sensitivo, e os meniscos, como superfícies sensitivas móveis. Os músculos funcionam como motores celulares, que transmitem força através do joelho ao mesmo tempo em que agem para absorver e dissipar cargas.

Cada joelho é diferente do outro. É importante que cada pessoa respeite seus limites. Se o joelho começa a ficar dolorido e inchado, é sinal de que deve estar alcançando o seu envelope de função.

Novas evidências cientificas indicam que o uso excessivo de estruturas do nosso aparelho locomotor pode levar à perda de equilíbrio tanto de tecido ósseo quanto de tecidos moles, como cartilagens, músculos, ligamentos e tendões. Quando isso ocorre, temos as lesões.

Didaticamente, dividimos o envelope de função em algumas zonas e isso, ao meu ver, é a chave para o entendimento e, especialmente, para a implementação clínica.

Zona de homeostase

A maioria das articulações não lesadas pode suportar um intervalo de uma a oito vezes o peso corporal e manter a homeostase, que pode ser definida como a capacidade dos organismos de manterem uma certa estabilidade; essa faixa é denominada carregamento homeostático. Essa é a carga ideal que um joelho deve receber: a que não o tire de sua zona de homeostase.

Zona de Sobrecarga Suprafisiológica

É a zona onde o treinamento sem o recovery adequado leva à perda da homesotase, com reação inflamatória, inchaço e dor.

Zona de falha estrutural

Se uma carga ainda maior do que a da Zona de Sobrecarga Suprafisiológica for aplicada, então danos estruturais evidentes ocorrerão; por exemplo, uma fratura por estresse.

Como estabelecer o envelope de função de cada um?

Não existe nenhum teste ou exame que nos diga exatamente quais os limites fisiológicos do indivíduo, mas a metodologia de quem lida com medicina esportiva envolve uma triagem hormonal, composição corporal, testes de equilíbrio muscular, testes funcionais, além do histórico de treino. A periodização do treino visando o aumento de performance é estabelecida em conjunto com o treinador.

É possível aumentar meu envelope de função?

Sim. A ideia é expandir o envelope de função ao longo do tempo a partir de um ponto de partida dinâmico, encontrado através de tentativa e erro, com progressão incremental ao longo do tempo. Ser gradual é fundamental. Quando um corredor faz uma transição repentina para um volume maior de treinamento sem a necessária adaptação, não é incomum que sofra lesões clássicas da corrida, como síndrome de estresse tibial medial (shin splints), condromalacia ou atrito do trato iliotibial.

Referências:

 

  • Dye, S. (2005). The Pathophysiology of Patellofemoral Pain; A Tissue Homeostasis Perspective, Clinical Orthopaedics and Related Research, 436, 100-110.
  • Louw , A., Zimney, K., O’Hotto, C. and Hilton, S. (2016). The Clinical Application of Teaching People About Pain, Physiotherapy Theory and Practice,
  • Outerbridge, R. (1961). Etiology of Chondromalacia Patellae. Journal of Bone and Joint Surgery, 43B, 752-757