Com multiplicação de arrendamentos, lavouras de soja e milho de grandes produtores ‘invadem’ assentamentos

Os pequenos produtores desistiram de atividades típicas da chamada agricultura familiar, por uma rentabilidade certa.

A soja e o milho estão “invadindo” os lotes dos assentamentos em Sidrolândia. - Foto: Marcos Tomé/Região News

Não há estatísticas oficiais a respeito, quem participa evita tratar do negócio de forma pública, que é formalmente proibido pelo Incra, mas o fato é que nas últimas safras tem se consolidado uma tendência em boa parte dos aproximadamente 80 mil hectares entregues à pequenos produtores beneficiários do programa de reforma agrária em Sidrolândia.

A soja e o milho estão “invadindo” os lotes dos assentamentos, boa parte deles, arrendados para grandes produtores que pagam entre 6 e 10 sacas por hectare cultivado, dependendo da qualidade da terra e da logística de escoamento. Parte do incremento de 106 mil na área plantada de soja no município (que saltou de 125.400 hectares em 2012 para 231.437 na safra passada), embora majoritariamente se deva a incorporação de áreas de pastagens, foi resultado também do avanço da cultura no espaço da agricultura familiar.

Os pequenos produtores desistiram de atividades típicas da chamada agricultura familiar (como produção de leite e hortaliças), por uma rentabilidade certa (sem risco e trabalho) que pode garantir uma renda anual de até R$ 14 mil. É o caso por exemplo, de boa parte dos “glebeiros” do Assentamento Vacaria, onde calcula-se, 40 dos 48 lotes estão arrendados. Só um empresário, que resolveu se aventurar na agricultura, arrendou 11 lotes vizinhos.

Uma das exceções é o assentado Luiz Varela, que desistiu da produção do leite para se dedicar a lavoura de soja e milho safrinha. Mesmo sem acesso a crédito, bancando o custeio do plantio e a colheita com as próprias economias, tendo de alugar colheitadeira por que não tem a sua, ele diz “valer a pena” e garante: é melhor que trabalhar de diarista nas fazendas vizinhas para completar a renda. Conseguiu na última safra boa produtividade, 70 sacas por hectare nos 14 hectares que cultivou.

A geada no início do mês e antes disso, os quase 60 meses de estiagem, trouxeram prejuízos para lavoura de milho do senhor Luiz que ao invés das 60 sacas obtidas ano passado, deve conseguir no máximo 30 sacas. Terá de recorrer ao corte e venda do eucalipto que tem na propriedade, para conseguir completar o custeio da próxima safra de soja.

A opção de parceria com o agronegócio como alternativa para garantir renda não é bem aceita por todos os assentados. É o caso do presidente Cooperativa Mista Familiar da Agricultura e Pecuária (Coopfap), Alberto de Souza, o Buiu do Assentamento Jiboia, que reúne 54 pequenos produtores de Sidrolândia (22), Itaporã e Dois Irmãos do Buriti, dedicados a fruticultura. Dos 238 assentados, ele cálculo que mais da metade arrendou seus lotes (que tem entre 17 e 38 hectares, aqueles localizados na parte mais arenosa da propriedade) para os fazendeiros da região. “Muita gente ficou com a casa, voltou pra cidade e vem aqui só de vez em quando”, afirma.

Buiu está convencido de que os contratos de arrendamento garantem no máximo R$ 6 mil de renda para os assentados, menos da metade do faturamento obtido pelos associados da cooperativa (R$ 15 mil) com a venda de polpa de frutas, numa área pequena, entre 1,5 e 2 hectares, no máximo. “Um deles conseguiu comprar 4 bezerros apenas com a venda de uma carga de acerola”, acredita. A cooperativa fechou em torno de R$ 500 mil em contratos para o fornecimento de polpa de fruta para a merenda escolar de Sidrolândia (R$ 150 mil para fornecer 8 toneladas) e Campo Grande (R$ 340 mil, com a entrega de 20 toneladas)”.

Buiu não poupa de críticas seus vizinhos, alguns deles companheiros de acampamento por eles próprios não estarem produzindo nos seus lotes. “Muita gente se acostumou com a ajuda do Incra, crédito de fomento, cesta básica, Pronaf e não se preparou para andar com suas próprias pernas. “Muitos chegaram a captar R$ 27 mil de crédito, comprou vaca e como não soube gerenciar o rebanho, acabou tendo de vender para sobreviver por algum tempo com o dinheiro obtido”.

Quem também crítica a parceria dos assentados com o agronegócio para produção de soja e milho, é Marlene Biel, do Alambari Fetagri, que há três anos introduziu o cultivo do urucum, conseguiu atrair o interesse de 70 assentados, que deve colher nesta safra 25 toneladas já com comprador certo: a Urucum do Brasil, que paga R$ 3,00 pelo quilo do fruto, usado como condimento e corantes de produtos como margarina e na indústria cosmética. “O arrendamento de lotes da reforma agrária contraria o princípio fundamental da agricultura familiar. O uso intensivo de agrotóxico, com pulverização aérea, provocou a morte das colmeias que tinha no meu lote para produção de mel”, sustenta.

Quem também anda desencantada com seus vizinhos de assentamento é dona Hilda Riquelme Cardoso, que há 10 anos juntou as economias, comprou o “direito” pelo lote e trocou Campo Grande pelo Assentamento Eldorado, na região do Bafo da Onça. “A maioria nem mora aqui, preferiu arrendar para os fazendeiros”, constata. Ela pratica uma agricultura de subsistência, mas conta com a sua aposentadoria e a do marido. “Não tenho acesso a crédito do banco, nem recurso próprio, para custeio o plantio”, revela.

A parceria para a produção de soja e milho inflacionou tanto o custo de arrendamento, que o assentado José Milton, até há quatro anos um grande produtor de mandioca no Capão Bonito, onde chegou a cultivar 100 hectares da rama, trocou Sidrolândia por Antônio João.

Na região do Quebra Coco, o empreendedor Juscelino Vitorino, que tem uma indústria de beneficiamento de mandioca no distrito, chegou a tentar uma parceria com pequenos produtores da região. “Com o apoio do ex-prefeito Ari Basso, conseguiu gradear 3 hectares, por propriedade, de 20 produtores para eles se dedicaram ao plantio de mandioca com a garantia de compra na lavoura. A maioria abandonou o projeto”, conta.

Juscelino calcula que numa área de 2,5 hectares, o assentado consegue colher 50 toneladas de mandioca, teria uma renda anual de R$ 25 mil, bem maior que o arrendamento para soja e milho. Para garantir o suprimento da sua micro-indústria, que comercializa em média de 400 a 500 caixas de mandioca por mês. Juscelino, optou por arrendar três lotes no Assentamento Florida (que somam 30 hectares), pagando R$ 800,00/ano por hectare, ou seja R$ 7.200,00 num lote de 9 hectares.

 

 

*Matéria atualizada para acréscimo de informações.