Histórico de famílias desestruturadas, o que une adolescentes recrutados pelo tráfico

Adolescentes são filhos de pais separados, alguns cumprindo pena por tráfico, vários são usuários de drogas.

Na semana passada a Polícia Militar flagrou adolescentes, alguns, com menos de 15 anos de idade, vendendo e consumindo drogas na Praça do Bairro São Bento - Foto: Divulgação/PM

Na semana passada a Polícia Militar, cumprindo uma rotina quase diária de patrulhamento, flagrou adolescentes, alguns, com menos de 15 anos de idade, vendendo e consumindo drogas na Praça do Bairro São Bento. Um deles, que tem 13 anos, admitiu que atua na venda de pasta base ao preço de R$ 10,00 a porção. Foi encaminhado para a delegacia, o conselheiro tutelar de plantão foi chamado e antes das 23 horas estava de volta as ruas.

O garoto, íntegra uma legião de no máximo 20 adolescentes que perambulam pelas ruas, tem a praça do São Bento e o entorno do Brizolão, como ponto de concentração. Seis deles, entre os reincidentes, foram internados compulsoriamente (por decisão judicial) numa clínica de recuperação em Campo Grande, ao custo mensal de R$ 6 mil, despesa bancada pelo município.

O que tem em comum, além de uma curta e já trágica trajetória de vida, que o vício os tornou presas fáceis do tráfico de drogas, é a desestruturação familiar. São filhos de pais separados, alguns cumprindo pena por tráfico, vários são usuários de drogas. Muitos país se veem impotentes. Chegam ao ponto de pedir na delegacia para que os filhos fiquem presos.

O histórico deste aprendiz de traficante, mencionado no início do relato, tem doses extras de dramaticidade. A mãe foi morta a facada em 2018 num bar onde mantinha um ponto de venda de drogas. O assassino está preso e vai a júri popular. Maria (nome fictício deste personagem real) foi morta ao cobrar dívida de droga do cliente.

O pai, por muito tempo usou drogas e chegou a ser preso por ter agredido os pais (avós do garoto). Hoje o menino mora com o avô de 68 anos. Não estuda e foi expulso quando fazia o 5° ano na Escola Porfiria Lopes do Nascimento. O avô, com a saúde abalada e dependendo da renda que aufere no bar que mantém no Bairro São Bento.

Já perdeu as contas das vezes que teve de ir à delegacia porque o neto foi apreendido. "Sempre trabalhei. Nunca tinha passado na porta de uma delegacia. A gente fala, orienta, pede para que estude e seja alguém na vida, mas não adianta. Ele não ouve, vem casa para tomar banho, comer alguma coisa é só volta altas horas para dormir", conta resignado.

Histórias familiares como estas são comuns nesta legião de garotos aprisionados pelas drogas. Luciana, sobrevive como diarista. Cria sozinha o filho de 13 anos. Sua esperança para resgata-lo das drogas é a internação (compulsória) numa clínica em Campo Grande. “Não sabia o que fazer. Perdi as contas dos dias que faltei no serviço porque fui chamada na delegacia. Me sacrifico, comprei celular, tênis, que ele pede, mesmo assim, ele continuou nas ruas”.

Entrou na Justiça para pedir o auxílio-reclusão do ex-marido (preso em Campo Grande desde 2015). Vai precisar de um reforço no orçamento para conseguir custear as despesas até a clínica na Capital, quando for visitar o filho.