Milícia executou próprios membros e com requintes de crueldade

A forma como o grupo agia explica um pouco tamanho terror.

Em junho de 2018, uma das execuções atribuídas à milícia é do ex-chefe da segurança da Assembleia. - Foto: Campo Grande News

“Quem não silencia, é silenciado”. A máxima citada quando o assunto é o famoso código de silêncio das máfias, resume um pouco o teor dos autos da Operação Omertá. Basta ler as conclusões do trabalho investigativo sobre o grupo de extermínio, para observar que o medo é presente o tempo todo, não só pelos alvos, mas entre os integrantes da milícia armada, à qual são atribuídos pelo menos oito execuções nos últimos 10 anos. A forma como o grupo agia explica um pouco tamanho terror.

Foi queima de arquivo, apontaram as investigações da época. Mas para os responsáveis pela Operação Omertá, foi também um recado para demonstrar os riscos a quem quebra a lei do silêncio imposta aos integrantes do grupo de extermínio. A apuração indica que Rafael, o mais jovem dos três envolvidos no crime, era considerado o “elo” mais fraco, além de ter cometido o erro de comprar, logo depois do crime,  veículo de valor acima de sua capacidade financeira aparente.

Outra prova da extrema violência aplica aos desafetos e ex-funcionários, argumenta o Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado) no pedido de prisão de 23 pessoas feito à Justiça, estava junto com o arsenal apreendido em maio deste ano, com o ex-guarda municipal Marcelo Rioss. Foi encontrado também um arreiador de gado, instrumento originalmente usado na pecuária, para aplicar choques elétricos no gado. Nas mãos dos integrantes da milícia, diz a investigação, o equipamento virava instrumento de tortura.

Também foram localizados dois instrumentos do tipo na casa de José Moreira Freires, indicado junto com Juanil Miranda Lima, como os responsáveis pelo objetivo final da milícia, executar os inimigos da família Name, considerada comandante da organização.

Clima de medo – Não apenas a quebra do silêncio era encarada como risco de vida, observa material levantado. Trechos do texto de mais de 1.300 páginas, que baseia os pedidos de prisão dos envolvidos, deixam claro: havia muito medo de errar e, quando isso aconteceu, o sentimento virou pavor.

Isso fica mais nítido com relação a Marcelo Rios. Primeiro, foi em relação à execução, por engano, do estudante Matheus Coutinho Xavier, de 20 anos, em abril deste ano. O alvo era o pai do rapaz, o capitão reformado da Polícia Militar Paulo Xavier, considerado desafeto dos “patrões” do esquema criminoso.

Em maio, mais um problema para Rios, que trabalhava há quatro anos com os Name, de acordo com a peça investigatória. No dia 19, ele foi preso com armas que, apontam o Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assalto e Sequestro) e o Gaeco, deveriam ser entregues diretamente a Jamil Name, tido como o chefe da “orcrim”, abreviação de organização criminosa no jargão jurídico.

Testemunha-chave, a mulher do ex-guarda civil municipal sugere nervosismo muito acentuado dele nos períodos próximos a assassinatos. De acordo as revelações dela, o marido chegou a ficar sem dormir, nem comer, de tão abalado.

Em outra situação, o investigado, fala do medo de que sua cabeça fosse “rolar”. Quando houve o assassinato de Marcel Hernandes Colombo, "Playboy da Mansão", atribuído ao grupo criminoso, a esposa de Marcelo Rios contou em depoimento que ele só confirmou a execução aos chefes a quando leu a notícia em jornais.

Em outro trechos da peça processual, aparecem mais funcionários da família Name citando receios. Guardas municipais que trabalhavam como seguranças também faziam transporte de integrantes da família e apresentavam temor de qualquer coisa que pudesse dar errado, como por exemplo em ocasião na qual um dos filhos de Jamil Name Filho, de 12 anos, não foi localizado rapidamente no local combinado.

Frase de efeito – Em 18 de abril do ano passado, segundo consta do texto pedindo as prisões dos envolvidos, Jamil Name Filho, 42, também chamado de “Jamilzinho” e “Guri”, travou diálogo com a esposa no qual demonstra preocupação com algum acontecimento e fala em iniciar “a maior matança da história de Mato Grosso do Sul”.

Em conversa de Whattsapp, Jamilzinho afirma ter recebido uma informação desagradável. Nessa conversa, ele afirma que “tem medo quem é caçado, não sou eu. A matilha é minha. Não morro fácil”, está transcrito na peça processual do Gaeco.

A partir de junho de 2018, ocorreram quatro mortes colocadas na conta da milícia armada. Além de Marcel Colombo e de Matheus Coutinho, a lista tem o chefe de segurança da Assembleia Legislativa, Ilson Martins Figueiredo, 62 anos, e Orlando da Silva Fernandes, o “Bomba”, 41 anos, ex-segurança do traficante Jorge Rafaat, executado em 2016, em Ponta Porã.

Todos os elementos coletados, para o Gaeco, comprovam que o grupo age com “audácia, destemor e altíssima periculosidade”. A “omertà” identificada pelos investigadores impõe dificuldades ao trabalho policial, segundo alegam. Nessa investigação, por exemplo, há relatos de ameaças às testemunhas, inclusive com mudança de versões.

Ainda assim, está registrado na manifestação à justiça solicitando as prisões e realizações de buscas, que só policiais topam depor, e ainda assim, apenas sobre o elo final, os executores, sem chegar aos responsáveis pelo “mando”. Diante do medo, alegam os promotores responsáveis pela peça, o “cidadão de bem se sente constrangido” e a opção da maioria é a lei do silêncio.