Nadador brasileiro foi ao "berço" da Covid-19 e temeu trazer vírus na volta: "Ficha demorou a cair"

Leonardo de Deus disputou os Jogos Mundiais Militares em Wuhan, em outubro, e disse que levou tempo até entender gravidade do novo coronavírus

Leonardo de Deus nos 200m borboleta em Wuhan - Foto: Xinhua

O nadador Leonardo de Deus ainda custa a acreditar que esteve no berço da crise pouco antes de o novo coronavírus atingir uma escalada global que já impactou mais de 200 países e fez mais de 87 mil vítimas. Entre 18 e 27 de outubro, o atleta de 29 anos disputou os Jogos Mundiais Militares na cidade de Wuhan, na província chinesa de Hubei, de onde saiu com uma medalha de ouro nos 200m borboleta e outra de prata nos revezamento 4x200m livre.

O bom desempenho foi magnificado com suas impressões da cidade de mais de 11 milhões de habitantes, que promoveu um evento de proporções olímpicas (9.300 atletas de 140 países).

 

- As competições estavam cheias, com o público comparecendo, tudo muito lotado. Foi um megaevento que fizeram. Na cidade de Wuhan, é tudo muito grande e tudo muito afastado, distante. Para tudo era preciso pegar uma highway ou uma estrada que ligava uma parte da cidade à outra. Na vila dos atletas era preciso andar muito, e olha que eu tinha experiência em vila - disse Leonardo, que esteve nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e Rio 2016, além dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, Toronto e Lima.

Cerca de dois meses depois de visitá-la, o nadador brasileiro voltou a falar de Wuhan, mas de uma maneira menos lisonjeira. A cidade começava a pipocar no noticiário internacional como epicentro de um contágio acelerado de um vírus (posteriormente chamado de novo coronavírus, cuja doença causada é a Covid-19).

A primeira reação foi falar com os pais e a mulher, Bianca. Entre a razão e o medo, temeu que pudesse ter sido portador do vírus, ou que o tivesse trazido para o Brasil na volta (a delegação nacional teve mais de 300 integrantes na competição).

- Até comentei com meus pais que o vírus com certeza já poderia estar pelas redondezas em outubro. Depois pensei, muitas pessoas pegam a Covid-19 e ficam assintomáticos. Fiquei pensando se algum de nós tivesse pego e trazido para o Brasil, que loucura ia ser. Mas, graças a Deus, na época em que a gente estava lá não havia nada, parece - comentou.

A tese mais aceita é que o novo coronavírus se originou em um mercado de animais vivos em Wuhan e foi registrado depois de casos em dezembro.

- Eu vi uma reportagem mostrando a cidade de Wuhan e nela contava que a vila dos atletas onde eu fiquei nos Jogos Mundiais Militares virou um complexo para cuidar dos doentes. Até comentei com a minha mulher que era a vila onde tinha ficado. Fiquei impressionado - afirmou.

Nos quatro meses seguintes, ele se espalhou de maneira incrível pelos quatro cantos do globo. O primeiro caso oficial no Brasil se deu em 26 de fevereiro.

Enquanto ainda tentava lidar com o fato de que escapara por pouco do início da crise, Leonardo começou a deparar com mais notícias sobre os efeitos da Covid-19. Primeiro, com a alta vertiginosa dos casos na Itália, depois na Espanha e outros países europeus, o Irã e os Estados Unidos. O Brasil entrou agora na alta de contágio.

- No início, principalmente nos países das Américas meio que achamos que não ia chegar aqui. Ou que era alguma especulação. Depois, quando aconteceu o segundo epicentro mundial, na Itália, com gente morrendo e imagens fortes de leitos nas UTIs, aí deu o estalo. Eu caí na real de que era muito sério, a ficha demorou a cair. Imagina se nós tivéssemos trazido esse vírus para o Brasil. E, querendo ou não, a gente não tinha essa coisa de chegar em casa e levar as mãos. Além disso, o brasileiro é muito comunicativo, de abraço, beijo, é muito afetivo - disse.

Nesta quarta-feira, mais de dois meses após anunciar quarentena total, Wuhan baixou o decreto de isolamento pela primeira vez - embora ainda haja restrições à população. Do outro lado do mundo, Leonardo atravessa a terceira semana de isolamento em sua casa, em São Paulo.

Sem poder treinar, o nadador tem apelado ao improviso. Pela manhã, geralmente faz alguns exercícios com uma escada e garrafas d'água. Ele conta as horas para poder voltar à piscina e treinar para tentar vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio, que foram adiados para 2021 também devido à Covid-19.

- Nós somos brasileiros e não desistimos nunca. Esses meses de desgraça na saúde pública transformaram a vida dos atletas e de todo mundo. Mas aí quando começamos a ver que as coisas estão voltando ao normal onde começou, na China, dá uma esperança. Talvez as coisas nunca mais sejam como antes, mas dá uma esperança. Eu acredito que a humanidade toda quando, se junta, constrói uma unidade mais forte - concluiu.