O desafio de ficar em Isolamento social quando se mora num vagão ou no barraco

Moradores relatam a dificuldade de morar em barracos e sobreviver da coleta e venda diária de lixo reciclável.

Moradores relatam a dificuldade de morar em barracos e sobreviver da coleta e venda diária de lixo reciclável. - Foto: Marco Tomé/Região News

Se você que tem emprego formal (na iniciativa privada ou no poder público), mora numa residência de alvenaria, não gosta da ideia de ficar em casa para seguir a recomendação dos médicos que defendem o isolamento social, imagina a dificuldade que é para quem mora num barraco, sobrevive da coleta e venda diária de lixo reciclável ou de uma diária de serviço domésticos.

Ficar trancado não é alternativa para "Magnata", o nome artístico de Ziobert Afonso de Souza, que há 4 anos mora num vagão de trem na antiga esplanada, que desde junho de 2018 transformou-se numa favela com mais de 160 famílias a meia quadra da principal avenida comercial da cidade, a Dorvalino dos Santos.

"Coloco nas mãos de Deus esta história de coronavírus. Pra sobreviver, preciso sair cedo, coletar e vender o material reciclável. Dependo disso pra comprar comida, beber, fumar e pagar a conta de água", relata. Ele está há 4 anos na cidade, metade deste tempo morou embaixo de uma árvore perto do Posto Pé de Cedro. Tem 55 anos e sofre de bronquite asmática (o que torna um potencial integrante do grupo de risco do Covid-19).

Quem também não tem a opção de ficar em casa para escapar das aglomerações, é o ex-operador de máquinas agrícolas, pai de 3 filhos, Luiz Laureano, 65 anos. Desde que ficou desempregado, teve de se juntar as famílias do acampamento para escapar do aluguel de R$ 300,00.

Sobrevive da venda de lixo reciclável, que nestes tempos de pandemia não lhe rende mais que R$ 800,00, menos de um salário mínimo por mês. Assim como Magnata, não usa máscara em suas andanças pela cidade, nem recebeu equipes da Saúde para se vacinar contra influenza.

Pior situação é enfrentada pela diarista Dorcas de Jesus, 36 anos, separada do marido, mãe de 4 filhos, há 8 meses em Sidrolândia para onde se mudou vindo de Lemes, no interior de São Paulo, segundo ela para fugir da violência do ex-marido que a agredia, embora tenha medidas protetivas da Justiça contra ele.

Mora num barraco de lona sem porta. O ex-marido não vem pagando a pensão das crianças. Sobrevive de R$ 260,00 que recebe de bolsa família e das diárias. Parte do dinheiro do auxílio emergencial que receberá do Governo Federal vai gastar na compra de um óculos de grau. "Sem óculos, estou praticamente cega", revela. Ela defende a volta ao trabalho. "O governo não vai dar dinheiro pra sempre. Se pode ter aglomerações para fazer festa, churrasco, tomar cerveja, porque não sair pra trabalhar?", questiona.