Símbolo de longevidade, ex-nadadora teve sintomas, mas não conseguiu teste para Covid-19

Giseli Caetano, que se aposentou com 40 anos, e o marido tiveram febre.

Giseli Pereira com medalhas em torneio - Foto: Arquivo pessoal

Giseli Pereira Caetano ganhou o respeito da natação pela força de suas braçadas e pela capacidade de se manter competitiva até uma idade antes considerada impossível para um atleta de alto rendimento. A fluminense disputou quase 30 campeonatos brasileiros - alguns pelo Flamengo e a maioria deles pelo Esporte Clube Pinheiros - e se aposentou das piscinas aos 40 anos, em 2012. A resistência foi sua marca.

A ex-nadadora, atual técnica da equipe master do Pinheiros, deu nova prova dessa resistência na virada de março para abril, quando se viu diante de um dos maiores desafios de sua vida. O inimigo era invisível e desconhecido.

Foi tudo muito rápido. Giseli deixou o Pinheiros após dar os últimos treinos para os cerca de 200 nadadores que orienta no dia 19 de março - naquela data, o clube cerrou suas portas já por causa da pandemia do novo coronavírus. Rumou para casa, onde cumpriria o isolamento ao lado do marido, Roberto, engenheiro civil.

 

Cinco dias mais tarde, ambos começaram a sentir sintomas "estranhos". O primeiro indício nela foi uma rinite alérgica, seguida por febre que a acompanhou por sete dias, dores de cabeça fortes e perda do paladar e do olfato. O marido ficou combalido com calafrios, suadouro e dor no fundo dos olhos. Sensações típicas de quem é acometido pela Covid-19. 

- Eu sou meio desesperada e liguei para três médicos. Todos eles me disseram a mesma coisa. Que era muito difícil eu não estar com Covid-19. Liguei para o plano de saúde, que disse que não conseguiria fazer a coleta em casa, e os três médicos me disseram para monitorar e só ir até um hospital se tivéssemos muita falta de ar. Até então essa era a orientação - comentou.

 

Giseli e Roberto são dois entre milhares de brasileiros que não conseguem fazer o teste de detecção da Covid-19 ou demoram para ter resultados, que geram uma altíssima subnotificação. Passado mais de um mês dos primeiros sintomas, o casal está saudável, mas ainda não sabe se teve ou não a doença, que já matou mais de 200 mil pessoas em todo o planeta.

- Nós tentamos fazer o teste e não conseguimos. Para fazer, precisaríamos ir até o hospital, mas os médicos falavam para evitar, só ir em caso de agravamento. Era para sair só se estivesse com muita falta de ar mesmo. Liguei para o plano de saúde para pedir o teste em casa, mas disseram que estavam com a demanda muito alta. Aí acabamos desistindo. E continua difícil. Eu fico até pensando em comprar um exame, mas tem tanta gente precisando mais. Vamos esperar um pouco, para quando houver uma facilidade maior de acesso ao exame fazer e ter certeza de que tivemos - disse.

Giseli e Roberto acreditam que o histórico de atleta que possuem ajudou a lidar com a infecção sem recorrer ao hospital. Mas a eventualidade de contrair a Covid-19 sem saber o diagnóstico preciso gerou outros problemas para a ex-nadadora, mais psicológicos do que propriamente físicos.

 

- Eu sou uma pessoa diagnosticada com pânico. Não tomo remédio nem nunca tomei, mas houve um momento da minha vida, quando perdi meu pai, em que desenvolvi pânico. Eu sei controlar bem quando estou muito ansiosa. Mas, durante o período [em que ficou doente], eu tive várias crises de pânico. O pior mesmo, que realmente amedronta, ataca, é a cabeça. A cabeça sente mais do que o corpo - disse Giseli.

O pânico adveio da dificuldade em se livrar da moléstia. A ex-nadadora calcula que foram quase duas semanas entre começar a passar mal (dia 23/3) até se sentir totalmente recuperada (6/4). Embora não tenha a confirmação de que contraiu a Covid-19, ela considerou a enfermidade que teve mais "insistente" do que todas as outras que já teve

- Você acorda com dor de garganta, aí espera alguma coisa acontecer com seu corpo. No dia seguinte, acorda melhor, mas no final da tarde aparece uma baita tosse. Parece que o vírus circula pelo seu corpo à espera de um ponto vulnerável. Uma coisa que nós sentimos muito era crise de hipoglicemia antes das refeições. Um dos nossos médicos chamou isso de crise de hipoglicemia reativa. Como não tomamos remédio, para combater o vírus o único suporte que o corpo tem é a alimentação. Então precisávamos comer mais. Mas as crises de hipoglicemia assustavam - afirmou.

Enquanto tenta retomar a um mínimo de normalidade, Giseli luta para processar o que aconteceu e como caminhar a partir de agora diante de um mundo com tantas incertezas.

- É tanta morte, tanta notícia ruim. E ainda as pessoas veem que o vírus ataca doenças das quais nem sabíamos que tínhamos, como uma cardiopatia, e aí ficamos pensando “nossa, será que eu tenho isso?”. Passa mil coisas pela cabeça, é uma situação muito ruim. Agora, preciso esperar passar um pouco o período de pico para fazer o teste e ver se eu já tenho anticorpos. É muito diferente de tudo o que já tive - concluiu a ex-nadadora.